Memórias: Dias aziagos

26 de agosto de 2020 Off Por Luiz Geraldo Mazza
Compartilhe:

Uma das reverências do passado era o respeito a datas religiosas e cívicas. Havia até uma crença em respostas fulminantes do destino às infrações como o fato de jogar futebol ou nadar no tanque e não conservar o dia de guarda. Chamávamos esses dias de ´´aziagos´´ porque estávamos sujeitos a sanções como acidente no jogo e risco de afogamento. Era, enfim, uma explicação pronta para a quebra de culto.

Lembro de uma cena desses dias vivida na ´´Volta Funda´´ do Barigui das Mercês onde até 1954 eu o frequentava junto com a turminha. Estávamos em quatro: o Elias, apelidado de Rasputin, Jubel Guiraud e o menino mais novinho o Oseas. Só eu sabia nadar, os outros não dominavam nem o ´´cachorrinho´´ muito menos o arranque. O lugar em que estávamos, entretidos nas abluções, era regulado por um bloqueio no rio e que movimentava um moinho. Fechado o cerco das águas, fomos surpreendidos pela alta do nível do rio e apesar de estreito havia pontos em que não dava pé e foi um drama a saída de todos com vida. E é claro atribuímos o feito à circunstância de que era feriado, dia santo, e por isso fomos punidos.

As crenças

Pisou em ferro enferrujado em prego ou arame farpado havia uma crendice salvadora- a de colocar no material agressivo um pedaço de cebola. Ou então quando houvesse sinal de infecção havia um rito: tirar a cinza do fogão à lenha, colocá-la numa bacia e botar o pé junto ao cinzeiro, e com uma faca descrevendo cruzes (eram três) e dizendo como uma oração ´´eu te corto, íngua, míngua, íngua em uma, duas, três partes´´. E a íngua sumia. E quando havia caso de erisipela havia um tipo de oração: erisipela dá na pele, da pele dá na carne, da carne dá no osso e do osso vai à terra. Havia o dia de quebra portão na semana santa e aquilo nos transformava em predadores derrubando porteiras ou atingindo placas de propaganda. Nada a ver com os anjos que batiam em portões nas cenas bíblicas, ainda que fosse na Páscoa.

Atraindo balões

Não havia radares naquele tempo em que controlávamos os balões juninos (havia centenas deles no espaço) com um espelho e que tinha o poder magnético de atraí-los para a queda e as cenas seguidas de ´´bucha´´ ou de resgate dos travesseiros, laranjas, o nome conforme a forma. A ´´bucha´´ era a violência, impedir que alguém levasse o balão íntegro, daí a necessidade coletiva de destruí-los a pedradas e pauladas.  

Compartilhe: