Vasos comunicantes

8 de junho de 2020 Off Por Luiz Geraldo Mazza
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É indiscutível que  governo estadual tem o direito de exigir o recadastramento dos descontos de sindicatos e associações nas folhas de pagamento, mas não se pode subestimar o que isso representa para os sindicatos até porque já foi usado como ameaça em conflito com governantes em momento de tensão.  O fato é que quando não há acerto administrativo busca-se a solução judicial como se deu na demissão de 500 professores PSS (Processo Seletivo Simplificado). A APP Sindicato foi  à justiça e ganhou a parada por unanimidade na 3ª Câmara Cível do TJ.

Esse procedimento, o do recadastramento, ainda que submetido à mediação do Ministério Público do Trabalho, deixa a categoria sob o risco de organizar-se, o que demandará em reengenharia e custos elevados, pela sobrevivência. Quebra de rotina desse porte afeta estruturalmente todos e ainda submete sindicatos ao risco de perda de quadros, ainda que na questão da APP a classe perceba o quanto depende de um sindicato forte e organizado.

Embora como fato político o recadastramento aflija todas as categorias é visível que elas têm enorme dependência desse elo burocrático ao qual a estrutura estatal está acostumada e a sua reformulação visa dificultar a interação sindical na administração e deter os grupos mais fortes como a APP pela dimensão dos seus quadros. Questão singela de vasos comunicantes.

Esperança

O registro de apenas 43 mortes em São Paulo pela Covid-19 em 24 horas é o menor desde abril e abre uma esperança quanto às ações desencadeadas pelo controle da pandemia. Não é um dado seguro porque as ações no Brasil se sucedem, como aconteceu no Rio, com a reabertura do comércio seguida de restrições por força das curvas estatísticas dos casos e das mortes. Na Nova Zelândia zeraram as ocorrências e aí seguiu-se a flexibilização. O governo central não  exerce o papel de coordenador que de certa forma havia entre o ex-ministro Mandetta e os  governos estaduais e municipais. Essa última intervenção na contagem dos mortos é evidência de falta de rumos e um fator a mais para azedar a relação entre os entes da federação.

Ninguém ganhou

Viveremos ainda muito tempo na disputa pra ver quem bota mais gente na rua como se esse dado lúdico decidisse a parada. É apenas um sinal de nossa escassa maturidade política e dá  para lembrar que ela esteve presente em outras crises como a de Jânio Quadros e a de Collor. Aguardava-se uma eclosão nas ruas com a renúncia de Jânio e nada aconteceu e Collor fez uma convocação verde amarela para encher as avenidas e a maioria foi de preto e pela saída do presidente. É notório que manifestações pró e contra Bolsonaro na mesma rua e horário é caminho certo para a selvageria e não planejamento policial que evite a barbárie.

Fazer carreatas, desfiles e comícios é um direito desde que não seja no mesmo espaço e horário. E isso, que aparenta complexidade, é singelo demais.

Antirracismo

Surpreendente a frequência de manifestações antirracistas nos EUA, na Europa e Ásia. São eventos fortemente motivados, mas que passada a onda não previnem ocorrências como a de George Floyd. As batalhas, lá dos anos 60, pelos direitos civis e a integração, tiveram respostas na lei, dentre elas,  a de discriminação positiva das cotas. Agora tivemos o imediato no agravamento das denúncias contras policiais e na baixa de ordens proibindo a mobilização de pessoas pela técnica da sufocação, aquela do joelho sobre o pescoço. Aqui no Brasil há a visão clara de que o racismo está presente no massacre de pretos e pardos como se fosse a coisa mais natural do mundo. Tivemos aulas de conscientização nos últimos dias relevantes como a dos depoimentos de negros da Rede Globo.     

Luiz Geraldo Mazza.

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