MEMÓRIAS: Estágio na passarela

6 de junho de 2020 Off Por Luiz Geraldo Mazza
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Reportar o mundo da passarela foi uma das missões recebidas ao lado da incumbência de organização de concursos de Miss Universo que os Diários Associados promoviam. Peguei uma fase meio vitoriana em que as mães se queixavam de expor as medidas das filhas candidatas. A descrição da anatomia preocupava como a hipótese de desfilar em maiô até porque um deles, o Catalina, era um dos promotores internacionais e se constituía em exigência básica, ainda assim com alguma resistência à exposição, mais por parte dos pais do que das candidatas.

Entre as pessoas que constituíam a comissão de julgamento estava sempre lá o maior nome das nossas artes plásticas, o Guido Viaro, que fazia exposições sobre a visão do corpo feminino na história da estética, valendo-se de modelos como o da Venus de Milo e da Calipígia e isso com extremo bom humor na evolução de conceitos sobre a beleza que ele rascunhava com destreza numa folha de papel.

Um dos clichês sobre as misses era em torno de preferências literárias normalmente voltado para Exupéry  e a obra ´´O pequeno príncipe´´. Foi justamente aí que uma das mais bem sucedidas candidatas, que chegou a Miss Brasil e bem classificada no Miss Universo, a jovem estudante de arquitetura Ângela Vasconcellos, que alinhou entre suas preferências o texto clássico de Franz Kafka ´´A metamorfose´´, a história do homem que desperta e na vigília se vê transformar-se  em barata. Ela captava no absurdo metáforas sobre a solidão, mas destacava os múltiplos significados, delicados e sensíveis, de ´´O pequeno príncipe´´, que alinhava também entre seus prazeres literários.

Meu estágio no concurso foi curto e não extenso como o do teatrólogo Edi Franciosi que era colunista social e como repórter se caracterizou como mendigo para documentar o universo dessa carência, um Victor Hugo de calças rasgadas.  

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