Sintonia sociedade-Estado

5 de junho de 2020 Off Por Luiz Geraldo Mazza
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O agravamento das denúncias contra os policiais que atuaram no caso de George Floyd levou a aumentar a marcha antirracista em várias cidades dos EUA. É um caso de sintonia entre massa mobilizada e Estado e aberta a esse intrincado convívio. Se não houvesse respostas dir-se-ia que não houve diálogo entre os rebelados e as instituições. E no interior dessas não foi pequeno o conflito provocado pelo recurso de Trump pela intervenção das forças armadas nessas marchas que ocorreram em centenas de cidades americanas, mas também em outros países como França e Inglaterra.

Em Washington especialmente essa sintonia ficou patente no mesmo dia em que houve a exasperação das responsabilidades criminais por ação e omissão da polícia, já que havia condições para que a vida de Floyd fosse poupada se os policiais presentes impedissem a consumação da violência. Essa correlação impede o pior, o estado de anomia que se instalaria na continuidade das marchas e na falta de respostas das instituições. O enquadramento o mais abrangente possível seguiu ritos da lei que nem sempre são observados com tanto rigor e fazem com que essa marca de origem, o racismo que permeia relações sociais, deixe suas digitais, seus vestígios, em acontecimentos como esse.

Gradual e persistente

O Brasil tem vocação ao gradualismo. Foi o que se deu nos anos de chumbo com a abertura lenta e gradual, mas firme e persistente das instituições ainda manietadas pelas disputas entre pombos e falcões do regime. Convenhamos que a abertura política esbarrava em dificuldades tão complexas como a de agora na economia.  Agora estamos à frente de outro gradualismo, o da retomada da economia que deve pautar-se pelas cautelas sanitárias ante o risco de aumento das infecções. Por sinal que o abre-fecha do comércio é ditado pelo relaxamento como se nota em São Paulo na recuperação do ritmo de viagens à praia ou ao movimento turístico em Canela na serra gaúcha. É curioso que mesmo na fase mais aguda do isolamento, o governador João Doria, de São Paulo, tenha afirmado que a despeito de tudo com o rigor das cautelas, 74% da economia operava a pleno vapor. Essas afirmações não se confirmaram no tombo industrial de abril em 18,8% ante março que já havia caído 9,1%. Verdade que atividades como a portuária -e isso se deu no Paraná nos recordes de exportação graneleira- mostraram vitalidade em favor do agronegócio e o desempenho dos transportadores.

São Paulo, 40% do mercado nacional, está com as vendas aquém da normalidade com setores atingindo 60% do que vendiam antes, mas com a grande maioria não passando de 40%. Apostas na retomada dos negócios no Rio e São Paulo evidentemente dependem da evolução estatística dos casos da Covid-19, o mais das vezes recomendando a retomada dos cuidados de isolamento quando os números extrapolam.

Semântica ideológica

No regime militar havia a divisão entre fisiológicos e autênticos no interior do PMDB como tinha outra, mais abrangente, entre reacionários e progressistas. Agora irritado contra ações antifascistas, voltadas contra parte dos seus seguidores, Bolsonaro chamou tais grupos de terroristas. Depois da queda do muro, ficou estranho falar em comunismo, mas apareceu, na linha do ideológico o que os direitistas chamam de ´´marxismo cultural´´ que seria um acervo de consensos da esquerda, uma forma classificatória de tonalidades do espectro político ajustada a comprometê-la como vinculada às reflexões de Marx e Engels, dentre outros. Claro que uma coisa é análise de acadêmicos, outra a dos menos afeitos, todavia para um melhor entendimento e circulação de ideias convém a simplificação apesar de suas deficiências de generalizações. Por exemplo o bolsonarismo fala em compromisso liberal o que conflita com os impulsos autoritários dos seus comandos e que se torna mais complicado quando se tenta sustentar a linha de pensamento cindida entre a política e a economia. O liberalismo é um só na economia e na política e classicamente era oposto ao conservadorismo, hoje a ele acoplado. O divisor da política americana entre democratas e republicanos restabelece o divisor, hoje um tanto modificado como a ideia de uma nova esquerda, new left, a ele agregada.    

Fake news

Percebendo as reações, desde sua implantação pelos ministros Dias Toffoli e Alexandre Moraes, ante o inquérito das fake news, empenha-se o conjunto de integrantes do STF em sanar ao máximo esse processo de vícios e deformações tornando-o palatável ante o terror das ameaças a ministros e seus familiares nas redes sociais. Paralelamente há uma CPMI em andamento o que ajuda a dar sustentação ao alarme que gerou o inquérito. É possível que o ministro Alexandre Moraes alegue suspeição e, consequentemente impedimento, em ações vinculadas ao caso. É que ele não apenas por isso, como também no veto ao seu xará Ramagem na designação para a Polícia Federal, tem uma carga de protagonismo muito forte.

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