Defesa passiva

4 de junho de 2020 Off Por Luiz Geraldo Mazza
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Provavelmente chegaremos ao décimo dia de manifestações antirracistas nos Esteites. É que dotadas de autocontrole as últimas decorreram em relativa paz com seus componentes reagindo às expansões dos mais violentos. E uma das expressões está no uso de formas criativas da chamada ´´defesa passiva´´, aquela que os indianos empregavam contra os seus colonizadores. As pessoas ordenadamente deitam sobre o asfalto e ficam nessa posição durante oito minutos que foi o tempo que George Floyd -o joelho do assassino sobre o seu pescoço- ficou subjugado até a morte.

Essa imposição de formas de autocontrole são indispensáveis nas marchas como as temos por aqui no movimento dos sem terra e dos sem teto. Lembro que em El Dorado de Carajás pouco antes da ação da Polícia Militar um dos hierarcas arrancou das mãos de um agitado integrante um revólver como é comum fazê-lo com os que portam bebidas ou bebem em meio à passeata, retirando-os da marcha pelo mau comportamento. Algumas lojas seriam invadidas nas marchas americanas e o saque foi impedido pela reação interna de suas lideranças.  

São adaptações de convivência nesses conflitos que podem tornar inútil a intervenção militar anunciada por Trump, o que deve ter provocado alguns pontos de queda na sua pretensão de reeleição, dada a força de repercussão das ações antirracistas e que o atingem em cheio.  

O Rio de novo

Pelo jeito o Rio de Janeiro está condenado por seus governos a ser mal visto ante arreganhos da corrupção como os que atingiram Sergio Cabral e Pezão e se repetem agora com Witzel que em duas semanas, no esforço para não ser impinchado, demitiu seis secretários, o último Lucas Tristão, o de maior força política e sócio de escritório. A operação ´´Placebo´´ atinge em cheio o seu governo e como sempre envolvendo deputados em manobras que exploram filão bárbaro, a aquisição de respiradores e insumos do combate à pandemia do coronavírus. Como se não bastasse essa carga que levou a polícia a buscas e apreensão em sua casa e domicílios profissionais teve suas contas, as do ano passado, recusadas pelo Tribunal de Contas estadual.

Tombo

O tombo da produção industrial brasileira em abril foi de 18,8%, o maior em duas décadas, tudo contabilizado pela política de distanciamento da quarentena e razão dos inúteis e patéticos apelos do presidente da República pela reativação da economia. Por sinal que à cada flexibilização adotada segue-se um ciclo de aumento de casos da Covid-19 e também de mortes, o que acaba, num ciclo vicioso, determinando o retorno das cautelas e isso está se dando em vários estados e municípios e levando o pânico, cada vez maior, ao mercado. Para citar um exemplo: Londrina, que também flexibilizou, perdeu 5,4 mil empregos na região.

Mau exemplo

A manifestação antirracista em Curitiba irritou tanto o governador Ratinho Júnior como o prefeito Rafael Greca não apenas pelo vandalismo contra bens públicos mas também pelo ato herético da queima da bandeira do Brasil hasteada no Centro Cívico, arrancada e injuriada. Agora louvado nessa ação, o ex-lutador de MMA, Wanderley Silva, pede reação à altura de tanta boçalidade acumulada.

Provocações

Uma das características, pelo menos até aqui do governo Bolsonaro, é a provocação, com o que instrumenta peças importantes do governo em áreas que a esquerda tem força tradicional como meio ambiente, educação, cultura, feminismo e questão racial. Um dos atores mais fortes nesse sentido tem sido Sérgio Camargo na presidência da Fundação Palmares. Ainda agora, em plena efervescência das manifestações antirracistas no mundo inteiro, chamou o movimento negro de escória maldita. Em gravação de uma reunião interna publicada pelo Estadão ele se queixou da atuação de esquerdistas infiltrados e incentivou seus subordinados a os entregarem para serem demitidos. Entre suas agressões verbais a de que Zumbi dos Palmares escravizava pretos.     

Aforístico

No Rio de Janeiro já chegaram no Tristão. Pergunta-se por onde andará a Isolda.

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