A lista esnobada

29 de abril de 2020 Off Por Luiz Geraldo Mazza
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Lula e Dilma se livrariam da enrascada se tivessem feito o que Bolsonaro fez com o Ministério Publico Federal ao não dar a mínima para a exigência da lista como prévia da nomeação. Daí vieram o mensalão e a Lava Jato. O respeito aos rituais participativos continuou com Michel Temer , apesar de esse ter dado preferência ao segundo nome da lista, o que também acabou em enquadramento para o qual teve que se virar, duas vezes, na Câmara Federal e evitar a degola.  Simples assim: um ato singelo, ainda que olhado como desrespeito a um suposto direito orgânico de um estamento. Não consta que tenha havido uma reação corporativa da PGR como os ex-presidentes temiam.

Na realidade categorias com o timbre estamental são cercadas de cuidados como por exemplo a Receita Federal nas quais as escolhas devem ser cuidadosas. A Polícia Federal, que teve papel relevante na Lava Jato, manteve Valeixo até onde foi possível e só ocorreu com a demissão do ministro Sergio Moro, da Justiça, que a sustentava. Falou-se no noticiário que a comunidade profissional emparedada estava cindida, mas não houve reações expressivas e só essas é que efetivamente teriam sentido. Nas democracias, ditas participativas, é assim e muito mais no âmbito da reação geral, o que se viu no frustrado impeachment de Trump com a Câmara apenas representando o sentir de parte expressiva da população. Cobrava-se do presidente uma trama internacional para prejudicar Biden como se tenta, pisando em ovos, exigir da PF que não se permita intervenção presidencial e colóquios protetivos de apaniguados ou de parentes. O autoritarismo, às vezes, expressa principalmente o princípio da autoridade, afinal indispensável quando há forte desequilíbrio face ao princípio da liberdade. Todo o consenso, a forma comum de ver a democracia e seus valores, sempre está sujeito a desafios dessa ordem para que os nichos de autonomia sejam devidamente testados e se são permanentes.

Milagre adiado

Até agora não pintou o milagre esperado do Posto Ipiranga para reanimar a economia e salvar os empregos. É verdade que o afloramento da pandemia subverteu as circunstâncias e agora na negociação do auxílio a estados e municípios houve uma enxurrada de gastos na Câmara Federal que exigiu a mediação de Paulo Guedes. Havia uma proposta do setor militar de forte intervenção estatal no que chamavam de Plano Marshall brazuca e diante do qual Bolsonaro dá preferência a Guedes como se viu ontem, ainda que ministros milicos afirmem que o projeto se mantém vivo. Embora estejamos como nunca vivendo um período ideológico, que parece fazer renascer a Guerra Fria, há essas visões internas conflitantes num mal definido liberalismo na economia e distante do comportamento político. É que a ideologia praticada é de puro individualismo como se a eleição de Bolsonaro fosse algo revolucionário e isso está visível na oposição que muitos como o chanceler fazem restrições à China como expressão do comunismo em ataques sistemáticos e agora com a ala ideológica se opondo a uma possível negociação da Embraer com aquele país, principal parceiro de nossas exortações.  

Mau exemplo

O Brasil é apontado, em documentário da Netflix, como mau exemplo no enfrentamento da pandemia ao lado de Donald Trump, do iraniano Rohani, do inglês Boris Johnson, que depois recuou, inclusive infectado. A peça é voltada para negacionistas e visa reeducá-los. No mundo já foi ultrapassada a marca de 3 milhões de casos e o Brasil aparece como o 11º entre os que tem mais mortos e infectados e a China está à sua frente em 10% em número de casos. Na estatística de mortos, no Brasil, o Paraná aparece em nono com 75 casos.

Oscilações judiciais

Embora afirmado o princípio de que estados e municípios estão habilitados pelo STF a fixar normas de enfrentamento da Covid-19 os papéis atribuídos a cada ente não está muito bem definido. Aqui no Paraná concedeu-se ao estado posição preponderante, mas o Tribunal de Justiça já cancelou a reabertura do comércio no segundo polo urbano, Londrina. O fato é que a flexibilização levou à noção de abertura geral e povo tomou conta das ruas como se a crise tivesse terminado. Pelo jeito a carga nas unidades de saúde e hospitais vai levar a uma revisão do afrouxamento do distanciamento social. O uso obrigatório de máscaras em público é lei, ontem aprovada no legislativo e encaminhada a Ratinho Junior (que testou negativo para  Covid-19) para a sanção.

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