O jornal Gazeta do Povo de 23 de fevereiro de 1997 traz mais uma homenagem a Luiz Geraldo Mazza.

23 de outubro de 2019 Off Por Redação
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O jornal Gazeta do Povo de 23 de fevereiro de 1997 traz mais uma homenagem a Luiz Geraldo Mazza. Escrita pelo jornalista Francisco Carmargo como matéria especial para o Caderno G, a homenagem intitulada Luiz Geraldo, o Mazza inicia enumerando características pessoais de Mazza como o gosto pelos diferentes segmentos da cultura e sua semelhança física com o cantor francês Charles Aznavour, passa pelas diferentes atividades profissionais do jornalista “multimídia” e finaliza com “o mais compenetrado balé dentro das adversas condições do terreno” realizado por Mazza nas imediações do Rio Verde, onde Francisco Camargo, Mussa José de Assis e Luiz Geraldo Mazza costumavam pescar lambaris. Foram “Padedês, felinos e fellinianos arranques de um lado para outro, até uma imaginária coxia, saltos e rodopios” que mereceriam aplausos de Rudolph Nureiev e Mikhail Baryshnikov, segundo Camargo. (pesquisa de Selma Suely Teixeira para o livro Luiz Geraldo Mazza e Eloi Zanetti comunicadores do Paraná, de sua autoria)

Personagem
Luiz Geraldo, o Mazza
Francisco Camargo
Especial para o Caderno G

Jornalista, Luiz Geraldo Mazza também é advogado. Não fica nisso, porém: nele fervilham o poeta, o escritor, o torcedor do coxa, o jogador de futebol (insidioso atacante, fazendo dupla com o Hernani Vieira, no time da Redação da Gazeta, campeão de torneio em aniversário do jornal), o pensador, o humanista, o cantor de árias, o bailarino, o homem de TV, agora de rádio, o leão de assembleia, o piadista, o trocadilhista, o orador inflamado, o marido exemplar, o amigo do Alvino Cruz, idem de desembargadores, juízes, intelectuais e outras insignes personalidades, o conferencista e, não raras vezes, o saltimbanco. Um multimídia.
Charles Aznavour mora em Curitiba. Conta-se que o Mazza era constantemente confundido com o famoso ator e chanteur. Para mim seria mais um chansonnier. Em todo o caso… Moçoilas à beira de um ataque de nervos diante da inesperada aparição do ídolo. Leva algum jeito, de fato. Traços faciais. O detalhe são as sobrancelhas, do tipo cortinado. Ou cheguei-de-moto, revolta, encapeladas. Acho, porém, que está mais para personagem de John Ford. Não se trata aqui de imprimir a lenda. Mazza tem profundidade, a densidade humana de tipos fordianos, embora carregue o estilo Chaplin. Faltaria só o bigodinho. Chapéu coco já tem. No inverno, costuma sair com um boné de leiteiro, de onde descem protetores de bochechas parecendo orelha de cachorro de desenho animado. Melhor do que o chapéu coco e mais próprio para nossas paragens. Corte.
Nos idos de 60, Luiz Geraldo apresentava o Fórum de Debates. Às segundas, salvo engano. TV Paraná. Canal 6. Estúdio e torre na José Loureiro, ao lado do Diário do Paraná. O Mazza também trabalhou lá, fase revolucionária do jornal dos Diários e Emissoras Associados, do Velho Capitão. Corte.
Como Diretor do Departamento de Turismo do governo do estado (década de 50?), foi o responsável pelo plano diretor de turismo para o litoral. Sou jejuno na matéria, mas consta que, depois, nada tão sério chegou a ser feito nessa área. Corte.
Redação de jornal. Não havia máquina de escrever que o aguentasse por muito tempo. A vibração de certos textos chegava as pontas dos dedos com a força de um direto do Maguila. A lauda virava uma peneira. Os tipos ganhavam tamanha vida que fuzilavam o papel. Corte.
Ainda na redação: em papéis sorrateiramente colocados na máquina colegas encontravam constantemente versos de um poeta que pretendia se passar anônimo. Quem seria o misterioso autor? Aquele repórter de buço? O irascível chefe de reportagem? Era o Mazza, claro. Versos, hai-kais, às vezes uma simples rima ou frase trazida de um grafite de muro próximo, em sua louvação diária à vida. O famoso articulista da página nobre da Folha de São Paulo e editorialista da Gazeta do Povo, ex-diretor de jornalismo do Canal 12, é capaz, no entanto, de perpetrar acrósticos. Corte.
Redação, novamente: a artista japonesa, que não entendia lhufas de português, chega acompanhada de seu séquito. Aguardam a chegada da editora do caderno de cultural. Resignadamente, matam o tempo com olhares curiosos pelas paredes, mesas, cadeiras, pelos lendários ventiladores do Correio, na Rua Benjamin Constant. Sofrem tremendo susto quando surge uma perna por trás da mesa ao lado. O pezão direito fica parado no ar alguns segundos, parece acenar, cumprimentando-os, e some. Surge então o pezão esquerdo. Mais alguns segundos e some. O direito volta a subir e assim vai, em sequência, até que o Mazza levanta-se do chão e retoma o trabalho em sua mesa, fleumaticamente. Coitada! Até hoje, no Japão, a artista não deve fazer a mínima ideia do que estava acontecendo.
O Mazza costumava deitar no chão e fazer exercícios com as pernas quando a coluna exorbitava no incômodo lombar. Corte.
Barrancas do Rio Verde, proximidades de Curitiba. Invernão à moda antiga. Amanhecíamos no posto, eu e o Mussa José Assis. Certeza de muitos lambaris. Uma névoa terrivelmente branca subia do chão e dos remansos do rio, em lentas evoluções. A medida em que o sol aparecia, cortando a névoa como uma navalha na carne, a promessa de muito peixe ficava pálida, cada vez mais.
– Nada.
– Mudança de lua… (A velha desculpa de pescador)
Algo na mata, barulho. Alguém se aproxima. Abrem-se as cortinas. Vem a clássica pergunta:
– Pegaram alguma coisa?
Vozeirão rouco, inconfundível. O próprio. Antes de uma resposta, cai fulminada qualquer esperança:
– Lua cheia.
Fazer o quê? Insistimos, voltando a atenção para a peninha estática na água. Dar o braço a torcer? Nunca, muito menores para ele, vice-rei do lambari. Existe uma indisfarçada rivalidade entre pescadores de fim de semana. Um mísero lambari já seria suficiente para afastar a suspeita de incompetência de nossa parte. Mas desistimos quando ele transformou magicamente a beira do rio em palco, dando início a um show inimaginável. Seríamos brindados com balé, o mais compenetrado balé dentro das adversas condições do terreno. Padedês, felinos e fellinianos arranques de um lado para outro, até uma imaginária coxia, saltos e rodopios. Ah, se ali estivessem Rudolph Nureiev e Mikhail Baryshnikov… Certamente aplaudiriam, talvez em êxtase, a monumental apresentação do Lulu tendo como pano de fundo o simplório Rio Verde.
Ensaio fotográfico de Joseane Daher
(Gazeta do Povo de 23 de fevereiro de 1997)

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