Interatividade, Normalidade cúmplice e A ração e a razão são textos assinados por Luiz Geraldo Mazza para 4º poder, em 1996.

23 de outubro de 2019 Off Por Redação
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Interatividade, Normalidade cúmplice e A ração e a razão são textos assinados por Luiz Geraldo Mazza para 4º poder, em 1996. (pesquisa de Selma Suely Teixeira para o livro Luiz Geraldo Mazza e Eloi Zanetti comunicadores do Paraná, de sua autoria)

Interatividade: você decide
Luiz Geraldo Mazza

Nossas redes de televisão reproduzem instituições do Brasil colonial. O latifúndio (mais apropriado seria chamá-lo de sesmaria) eletrônico da Rede Globo, por exemplo, lembra, em tudo, o sistema das capitanias donatárias. Ignorar que isso tem relações com o poder é coisa de embotado: na penúltima eleição, a do outro Fenando, o Collor, percebe-se que ele não passava de um capitão donatário do sistema em Alagoas.
E ninguém se esquece da manipulação do último debate entre Lula e Collor, vencido disparadamente por este e ainda beneficiado por uma grosseira edição altamente indutora em cima do pleito.
Afora o problema da macrocefalia das redes, que acaba atingindo e diluindo as “culturas” e que formam o mosaico do sentir e viver brasileiros – o que também reclama intervenção para preservar identidades – temos ainda a dificuldade de fazer o controle social dessa parafernália.
Aos poucos, no entanto, o povo está encontrando formas de atuar: na novela O Rei do Gado havia a sugestão de que o vilão Jeremias Berdinazzi fosse uma caricatura de Geremia Lunardelli e, como familiares e amigos do Brasil inteiro protestaram, o personagem Bruno Mezzenga, num dos capítulos mais recentes, afastou a analogia. Ao dizer que o verdadeiro “rei do café” era Lunardelli, homem de bem, manteve o crivo sobre Berdinazzi.
Anteriormente, na novela Pátria Minha, o movimento negro chiou que os negros só apareciam em papéis secundários e, no folhetim seguinte, apareceram negros executivos mais dos que negros executados. É uma prova de interatividade e de que há caminhos de participação, algo próximo daquilo que Umberto Eco chama de “arte aberta”.
(Quarto Poder, 2ª quinzena de setembro de 1996. p.3)

Normalidade cúmplice
Luiz Geraldo Mazza

De repente, não mais que de repente, há a sensação de que existe contraste na imprensa do Paraná: os meios de comunicação, de um modo geral, tanto impressos como eletrônicos, dão vez à oposição e com uma veemência inusitada.
É que em períodos eleitorais – e nós ainda nos distanciamos dela, como se percebe na circunstância de haver segundo turno em Londrina – temos essa agradável sensação de normalidade, imposta pelas circunstâncias apropriadas a um período incomum. Assim mesmo, os maiores espaços são oficiais, de governo ou de empresa privada, o poder econômico, normalmente a ele ligado, quando não gravita, essencialmente, em torno da privatização, do que é originariamente público.
Não somos por isso uma ilha de horror no mapa da democracia brasileira, tão precária e tenra: esse predomínio do espaço jornalístico ao setor público é marcante até mesmo em jornais de maior força liberal, que dá a terrível impressão de que o mundo fora do governo é restrito demais. Trata-se de perversão cultural, decorrente de velhas praxes, e que a experiência, ainda curta, de democracia não foi suficiente para questionar e remover.
Claro que os maiores veículos do Paraná – cita-se aqui a Gazeta do Povo, a Folha de Londrina, TV Globo, SBT, – poderiam desfrutar de uma relativa “distância” dessas fontes de propaganda, já que conseguem retornos apreciáveis na iniciativa privada. Mas a maioria esmagadora age, notoriamente, como subalterna e dependente, sob uma tutela inegável e, realmente, não fosse isso, não teria condições de sobrevivência. Daí, também, os elevados investimentos em mídia por parte do Poder Público, que no caso da Prefeitura ultrapassa a cota de um milhão mensais, até alguns anos parâmetro dos dispêndios estaduais.
Só há uma forma de resolver essa pendência: a resistência do consumidor, do leitor, reclamando a notícia sem direcionamento, mostrando todos os ângulos, a cidadania ativa impondo aos meios de comunicação, por uma ação mais vigilante das denúncias em todos os campos (a seção de cartas da Gazeta do Povo e dos demais jornais configuram um caminho que poderia ser mediado pela entronização do ombudsman) o exercício, enfim, do direito à informação.
Um meio de comunicação depende tanto do emissor quanto do receptor e esse processo interativo, quando existe, é que assegura a normalidade na circulação dos acontecimentos e no envolvimento de todos. Vale lutar por ele.
(Quarto Poder, 2ª quinzena de outubro de 1996. p.3)

A ração e a razão
Luiz Geraldo Mazza

Curiosamente por falta de ração – o estipêndio oficial, cada vez mais curto e precário, já que acabou a festa da inflação e o Banestado está sob maior fiscalização – a nossa imprensa se aproxima da razão. É por uma via tortuosa que começamos a notar ares de impaciência, de sutil intolerância do sistema de comunicação social relativamente ao governo. Este, além de não ter os recursos, que irresponsavelmente gastava com a guitarra financeira, paga com atraso e isso deixa a clientela em pane.
Os meios de comunicação em geral, a maioria esmagadora dependente do setor público e, portanto, incapaz de sobreviver no mercado disputando o anúncio da iniciativa privada, ideal que todos defendem nos editoriais e não podem levar à prática até, em muitos casos, por acomodação, vivem um momento difícil e daí serem obrigados a dar sinais de inconformismo.
Há jornais como a Folha da Imprensa que alega abertamente em sua primeira página que o grupo financeiro da campanha de Lerner lhe deve dinheiro; outros se valem de sinais mais sutis como o dar destaques a ocasionais (até quando?) oposicionistas em páginas nobres a contestar o governo, o que jamais haviam feito antes. O fato é que esse cenário favorece o surgimento, ainda que de forma estranha e oblíqua, do contraste, do contraditório.
Se o governo não fosse pusilânime, reuniria os meios de comunicação e clarearia a todos que há uma situação nova no País, em que a inflação não mais permite prodigalidades de ontem, que não é legítimo cortar o SIATE e a verba dos hospitais para pagar a bajulação de jornais, rádios e tevês alinhados.
O governo é a UTI desse abuso. No Rio Grande do Sul, mercado mais denso que o paranaense, mais apto em comunicação (uma de suas agências, a MPM, era uma das maiores do país) temos menos jornais que no Paraná. Em Porto Alegre, com uma população aproximada a de Curitiba, temos três jornais e aqui, dez. Essa circunstância só torna a relação parcial do poder com os meios de comunicação mais acentuada.
Mas da falta de ração – verba – poderemos chegar à razão com um verbo menos chapa branca. Basta um pouco de juízo.
(Quarto Poder, 2ª quinzena de novembro de 1996. p.3)

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