Em Quarto Poder Mazza participou como um dos colunistas tendo escrito três artigos para o tabloide: Interatividade: você decide; Normalidade cúmplice e A ração e a razão.

23 de outubro de 2019 Off Por Redação
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Em agosto de 1996 começa a ser publicado o tabloide Quarto Poder, pela Emes editora. Criado para cobrir uma lacuna no jornalismo paranaense, um veículo de comunicação especializado em jornalismo, Quarto Poder nasceu, segundo o editorial de seu número zero, para “retratar um super-herói [dotado] de inteligência para interpretar a realidade, sensibilidade para não ferir a imagem ou os sentimentos alheios e honestidade a qualquer prova: o jornalista.(…) Este ser humano encouraçado por um nome poderoso: Imprensa, o quarto poder.” Em seu primeiro número, o jornal publica uma entrevista com Luiz Geraldo Mazza intitulada Professor de Deus, onde o jornalista fala sobre sua participação na imprensa local e nacional desde o início de sua carreira, em 1950, até 1996. Em Quarto Poder Mazza participou como um dos colunistas tendo escrito três artigos para o tabloide: Interatividade: você decide; Normalidade cúmplice e A ração e a razão. (pesquisa de Selma Suely Teixeira para o livro Luiz Geraldo Mazza e Eloi Zanetti comunicadores do Paraná, de sua autoria)

Professor de Deus
O mais polêmico jornalista paranaense, Luiz Geraldo Mazza, fala para o Quarto Poder. Sobre seus 46 anos de jornalismo e critica a imprensa local. Mazza nasceu em Paranaguá e é formado em Direito. Passou pelos jornais Diário do Paraná, Última Hora, O Estado do Paraná, Gazeta do Povo, Folha de São Paulo, pela antiga Radio Guairacá e é hoje comentarista da CBN e da CNN . É colunista da Folha de Londrina, além de colaborar para várias publicações locais. Luiz Geraldo Mazza não é apenas um jornalista. Ele é o Mazza.

O País dos Bacharéis
Faço jornalismo desde 1950. Só havia uma escola no Brasil, que era a Cásper Libero. Não tinha o curso de Jornalismo, numa época em que o jornalismo era uma descarga normal das pessoas que tinham pretensões literárias. O Brasil era um país que convidava a isso, porque era o país dos bacharéis. Era uma cultura bacharelesca.
Romantismo
Outra coisa, totalmente condicionante da nossa época, que dava uma visão idealista das coisas, é que o Brasil não era uma sociedade de consumo. Outro dia dei uma entrevista para o jornal do sindicato (as pessoas têm dificuldade de entender isso) e expliquei que não havia ambição, nem poderia haver. Nós não pagávamos imposto de renda. Ganhávamos uma porcaria. Tínhamos o direito de descontar 50% em passagens de avião, que era uma forma do governo cooptar a categoria. Tínhamos também a isenção da cobrança da Cisa, para conseguir a casa própria. Muitas das inspirações se limitavam a isso. Então o jornalista tinha uma vida boemia, desinteressada. Lembro-me que a gente ficava meses sem receber. E não havia esse furor sindical que tem aí.
Nostalgia
A gente vê que esse pessoal, o jornalista da geração nova, quer o impossível, que é reviver esse tempo. A época está modificada. É bailinho, não sei o quê, Aeroanta, onde o pessoal de jornal vai. Mas, na verdade, você percebe ainda certos rituais. A crise existencial diante de uma caipirinha, metendo o pau no jornal em que trabalha, no fim do dia. Então, toda aquela purgação, aquele exercício de psicanálise.
Capciosa
Nova Iorque tem quatro jornais. Curitiba tem 11 jornais diários. Uma barbaridade o número de emissoras de televisão. Agora tem TV a cabo. Tantas rádios em Curitiba. Fatalmente, nós temos um tipo de publicação comprometida. Como é que vão manter os jornais daqui, como o Diário Popular? Esse jornal de Cascavel, o Gazeta do Paraná, está batendo. Alega que tem dinheiro de campanha eleitoral. Esta é a outra coisa que caracteriza bem o nosso clima. O jornal Folha da Imprensa, do Alci Ramalho, está pondo diariamente na primeira pagina que o Jaime Lerner não pagou a conta da campanha eleitoral. É uma situação em que você vê realmente o tipo de relação que se tem. Altamente capciosa, uma relação perniciosa. Nós temos no Paraná uma informação de caráter convencional.
Conflito
Às vezes entro em conflito com a direção da emissora, com o cara daqui (CBN), que é o Mario Celso Petraglia, um dos maiores empresários do Paraná. Ele foi o PC do Jaime Lerner, foi o cara que levantou dinheiro na campanha eleitoral. Bato diariamente e o Jaime traz anúncios aqui. Acho que tinha de haver esses exercícios. E não ficar reduzido a eu e mais dois ou três caras fazendo isso em Curitiba. Porque, de repente falo o papel do lock, o idiota. Estou dando a impressão de uma democracia que não existe, na medida em que faço esse papel. Até tive uma discussão com o Ney Braga sobre isso.
Governo
Sempre critiquei o Ney Braga. Hoje, nenhum governo tem coragem de romper com isso. Nós tentamos, para que o Richa acabasse com isso. Até pelo fato de que o Brasil estava se democratizando. Em 83 não foi possível. O Lerner é o típico cara que cultua esse negócio de propaganda. No governo ele não está fazendo nada, está vivendo de propaganda. Com tudo isso ele tem uma reserva de credibilidade, em função da propaganda, o que torna esse rapaz, o japonês, Cassio Taniguchi, invencível.
Então você pergunta: como romper isso? Tem que entrar um governo ferrabrás, como nós tivemos com Haroldo Leon Peres, que acabou sendo cassado, porque contrariou os interesses de nossa elite. Não que fosse um cara bom, era muito reacionário, de direita. Mas de qualquer maneira, foi ele que começou a agredir o Tribunal de Contas, o Judiciário. Falou coisas que tem que falar, entende? Esse pessoal se acha protegido. E começou a dar uns coices na imprensa.
Globo
A Rede Globo, na verdade, é a coisa mais moderna. Isso não tenho o que contestar. O maior feito de 64 são as barragens, não é nada disso. O maior feito de 64 é a estruturação da Rede Globo. Porque ela só cresceu com o golpe. Inclusive trabalhei na Rede Globo uma parte dessa época. Então a gente vê que ele é o grande latifúndio eletrônico do País. E que os seus dirigentes regionais lembram as capitanias donatárias do Brasil. Aí você vê o caso do Antônio Carlos Magalhães, governador da Bahia. Hoje ele é um sócio do Roberto Marinho, na Ardec, uma grande empresa telefônica. Eles tomaram daquele banco. O Antônio Carlos Magalhães facilitou a queda do banco e a obrigação dela de ser entregue a eles. O grande problema nosso é que a Globo queimou etapas no salto que deu. Ela hoje é uma das maiores redes do mundo. O padrão dela é um padrão excepcional. Isso no mundo inteiro se reconhece. Ela permite que o Brasil exporte um produto nobre, a chamada indústria cultural, que são os nossos folhetins eletrônicos. São as novelas, as séries, os shows, que são absorvidos em mais de 50 países. Então é muito difícil você poder mexer com esse tipo de processo.
Caras Pintadas
Acho que foi a Globo que levou o pessoal a pintar a cara, não foi a UNE. Quem levou o pessoal pra rua foi a série Anos Rebeldes, não tem nem o que discutir. Porque que a rapaziada tentou, por idealismo, viver uma situação do passado,que poderia ter sido vivida pelos pais. A nostalgia do não-vivido. Era contra isso que a Lei de Segurança Nacional pretendia se defender. Era isso o que ela sentia, o poder de um meio de comunicação.
Interatividade
Só o diálogo, esta interatividade é que pode tirar as pessoas dessa apatia em que vivemos. Tem que romper a apatia, porque a televisão é magnetizante. Ela imobiliza a pessoa e ela não é via de duas mãos. Ela só é via de duas mãos na hora do Você Decide. Aquilo é um botão, uma brincadeira. Ela é interativa sim, quando se tem o caso dos caras pintadas que ela induziu. A televisão não dá nem pra ver. Aqui não, aqui (CBN) eu tinha uma audiência, acho que o Ibope deu errado, impressionante. Sou conhecido demais, sou mais conhecido do que a rádio. Claro, estou todo este tempo aí. Eu vejo pelo retorno. Ontem, no ônibus que peguei pra ir pra casa, estava um velhinho: “Você não é o Mazza? Minha mulher é uma burra, porque ela só quer ver o Luís Carlos Martins e não quer notícia”. Então, o cara tem a noção do que é notícia forte, entende? Essa rádio é uma rádio alternativa. Ela é do sistema Globo. Mas, aqui, por exemplo, não me cortaram embalo nenhum. Não fizeram cara feia nem me pediram nada, até agora. A hora que pedirem, encher o saco eu caio fora.
A Globo mudou
A Globo é diferente, mas a Globo mudou. A Globo sempre foi uma grande arma de esquerda, verdadeiro partido comunista. Isto ficou provado na campanha eleitoral. Problema do anúncio que eles repetiram, aqueles quase vinte anos da Globo, com quase todos os artistas. Eles eram todos a favor do Lula. Outro cara da Globo era o Collor. Então, dentro do processo de comunicação de massa é possível. Há a possibilidade de você abrir, tornar mais permeável. É uma luta que não é fácil, isto não cai do céu, entende? Existe uma tradição de esquerda na Globo. E ela já tem um pessoal de direita fazendo uma conspiração muito grande contra a Globo.
Conheci um jornal de São Paulo chamado Made in Artigo. Um jornal grande, muito interessante como veículo. A forma, a maneira como foi feito o jornal, e o padrão dele. Um jornal de sindicato, voltado para a alta burguesia. Mas tinha uma matéria que era uma provocação em cima da Globo, uma coisa maluca, entende? Um cara dizendo que o jornalismo era irresponsável. Que o Evandro era um cara neutro, na atual condição de jornalismo. O Armando Nogueira não, ele é um sujeito que tem vivência, tem boemia no Rio, convivendo com o Nelson Rodrigues e todos esses caras. Tem outro tipo. Este rapaz não. É um profissional. Não tem nada de ideologia na cabeça dele. A televisão está correspondendo a este momento. Está fazendo críticas ao próprio governo. Ela era governista demais, na época da Revolução, e não poderia ser ao contrário, certo? O Brasil era uma ilha de tranquilidade naquela época. Hoje você tem todo o conflito da sociedade. Por exemplo, a Globo mostrou a matança de animais na Amazônia, um troço maluco, foi filmado. Os caras estão entrando no buraco da fechadura da gente. Pegaram um médico bolinando a mulher, aliás, era uma jornalista boa aquela. O sujeito vai ser processado. Ele não tem como se explicar.
Banqueiros
No caso específico nosso aqui, vamos ter que lutar muito. Essa fascinação de poder do governo pelos meios de comunicação e a acomodação de nossos empresários. Aqui (CBN) não posso ser injusto, tenho toda a liberdade. A Folha de Londrina é um caso diferente, pertence ao Bamerindus, ao José Eduardo. Bom, isso aí, de certa forma, viabilizou o jornal. A gente corre o risco também na medida em que o José Eduardo se meta em política. Acho que ele ficou acuado nesses acontecimentos aí. Tenho a impressão de que ele entendeu que o envolvimento na política não foi bom para a saúde do banco. Deve ter percebido isso. Ele pode ter todo o direito. Nós já tivemos governadores banqueiros no Paraná, o Adolfo Ferreira Franco. Aliás, homem liberal. Cara de boas condições políticas. Então, não é por isso. Mas a relação atual da Folha de Londrina com o governo está sendo profissional. Eles reconhecem o veículo. Então o problema é o veículo. Agora dou paulada todo dia e sou amigo do Jaime Lerner. Também não existe guerra.
Fiz o Jornal de Brasília, escrevi também durante um tempo lá. Mas na imprensa nacional não, nunca tive ambição de sair daqui. O Última Hora me convidava o tempo todo pra ir pra lá. O Mussa, ele que é um grande organizador de jornal. O Mussa ficou um tempo em São Paulo, mas raras vezes fui lá. Os contextos me habituaram em Curitiba. É um pouco de timidez. E todos que saíram foram vistos, dos bons aos medíocres. Pessoas, inclusive, que não brilhavam aqui, acabaram encontrando seu caminho na imprensa nacional.
Transformações
Tenho uma vantagem, participei das grandes transformações da imprensa do Paraná. Primeiro escrevi no O Estado do Paraná, quando O Estado do Paraná surgiu em 50 e poucos, para dar apoio ao Bento. Você veja que coisa curiosa. O jornal aparecia para apoiar o Bento, porque O Dia, tão resistente, era do Lupion. Era a Gazeta do Povo da época, e ele era sócio. E a rádio Guairacá, que era a nossa melhor rádio, era a Globo da época. A mais importante é a Clube, mas a Guairacá… Depois virou a rádio Iguaçu, que cassaram da mão do Paulo Pimentel. Uma rádio que não se faz mais. Isto aqui (CBN) é uma rádio falada. Não tem produção, é claro. Você vê, nós estamos aqui, é uma coisa falada. Aquele rádio era um rádio batido a máquina. Faziam-se adaptações e ganhava-se muito pouco. Mas ninguém ligava pra nada. É como digo pra você, era uma outra coisa. As pessoas tinham outro sentido da vida. Hoje não, todo mundo está agredido pela sociedade de consumo. O jornalista ganha mal, né? Boa parte dos jornalistas tem carro bom. Não ganha bem, mas tem carro novo. Vai pra Cancun, vai para a Europa.
Folha de S. Paulo
Fui da Folha de S. Paulo e fiz a segunda página durante uns dois anos. No tempo do Sarney escrevi muitos artigos contra ele. Ganhava um salário ridículo, mas num veículo nacional. Coisa assim, pesada. Dava uma repercussão violenta. A Folha de S. Paulo, no norte do Paraná, é um senhor jornal. Só perde para a Folha de Londrina. Aqui em Curitiba é o segundo jornal, só perde para a Gazeta. Eu fazia às segundas-feiras uma coluna que era do Paraná. Fiz durante uns dois anos também.
Arrogância
O jornalista tem um defeito fundamental, que é a arrogância. Eu dou um pau, eu faço não sei o quê. Não é assim. E hoje o pessoal está processando. Estou com vários processos aí. E de repente, na hora em que o oficial de Justiça procura, o sujeito afina. Mas você já vai vendo que não é bem assim, não é tanta folga. Inclusive atribuo, aqui no meu caso, a pouca existência de processos contra mim ao próprio caráter corrompido da sociedade, das pessoas, das instituições que se reconhecem culpadas das coisas. O cara nunca contesta. Nem sempre tenho documento, e o jornalismo deveria ter sempre documento. Quem faz comentários como eu, se não me abastecer desses documentos, como é que vou desenvolvê-los? Quando tenho certeza de que aquilo é verdadeiro mesmo, e não tenho a documentação, faço a denúncia e corro o risco. Mas sei também que o lado de lá não vem pra cima, porque é como aquele provérbio árabe, sempre machista: “Bata na mulher. Você não sabe por que está batendo, mas ela sabe por que está apanhando”. É a mesma coisa, os caras sabem por que estão apanhando. Porque me conhecem.
Céticos ou cínicos?
Digo diariamente na rádio que existem “enlaces negociais”, no consulado, que dominam a política do Paraná e que precisam ser denunciados. Fui corrido pelos caras daqui da rádio. A Inepar, que é a maior empresa do Paraná, surgiu onde? Na Cidade Industrial, que foi um empreendimento compilado por esse pessoal que está no poder. Quer dizer, há no jornalismo paranaense acomodação e o jornalista de repente sai do ceticismo e pode virar cínico. Nem todo mundo tem a sensibilidade para perceber e tem cara que não está nem aí com isso. Se tem função social ou não o jornalismo, o cara está cuidando da tarefa dele, que é sobreviver.
Gazeta do Povo
A Gazeta, por exemplo, não vou dizer que a Gazeta é a mesma. Não é a mesma, depois que entrou a filha do Francisco Cunha Pereira, a Amélia (apesar do nome, é o contrário da Amélia do samba). É uma pessoa moderna, uma figura queridíssima. E que está fazendo o melhor caderno cultural nosso. A Folha de londrina sempre teve a tradição, a Folha de Londrina tinha um caderno cultural melhor do que os outros. Hoje, o da Gazeta é melhor, não tem como discutir. Então, a Gazeta está avançando, criou o Folheteen.
Quando a filha do Cunha Pereira chegar a assumir o jornal, ele vai mudar de figura porque tem potencial e gente lá dentro, sem agredir aquilo que o dr. Francisco pretende preservar. A Gazeta é um jornal pesado ainda, mas é um jornal que precisa ser submetido a uma melhor editoração. O jornal não pode ser uma gincana pra achar as matérias, você se bater para localizar a matéria.
Sindicatos
Qual é a nossa luta? O jornalista vai ficar só discutindo salário? Não adianta, o País está com um plano de estabilização. Qual é o salário que se pode ter numa situação, dessa, com onze jornais em Curitiba, tantas rádios. Por exemplo, aqui na rádio é um milagre. Isso aqui é que nem besouro: voa, mas não se explica. Como é que pode? Aqui tem dez profissionais ganhando de 1.200 a 1.300 reais, bem mais do que o piso da praça, entende? Já foi maior, tiveram que fazer cortes. Mas tem que fazer, de repente você vai pro vermelho e afunda. O jornalista não pode olhar isto de forma suicida. Que nem os bancários. Estas loucuras, isso é próprio de um país que passou por um regime de represamento e que hoje está caindo numa nova situação de liberdade. Então é decorrência disso tudo.
Alternativas
Primeiro, jornalista não precisa trabalhar só em jornal. Isto que é preciso ensinar na universidade. Tem que fazer uma avaliação disto. Quais são os campos de atuação de um sujeito formado na área de comunicação? Sou convidado para prestar consultorias, alguém me pede para : “ o que você acha disto, como nós estamos nos comunicando com o público?:” Vou lá e presto o serviço. Faço um frila. Poderia ter um escritório. Só que seria uma sacanagem. Algo decente é uma coisa sob o ponto de vista ético. Mas não recuso quando alguém me pede uma consultoria. Na eleição do Requião fui, até não pagaram. Tenho feito isto, trabalhar com pessoas, isso é um campo. Agora, isso aí o cara não ganha do dia pra noite. Isso aí é um estudo. Sou uma espécie de especialista de generalidades. Estou aqui na rádio e o cara: “você é um professor de Deus”, azar. Não vou dizer que entendo de tudo. Mas sou obrigado a falar de tudo. Tem que acumular conhecimentos e aí você tem possibilidade de abrir outros caminhos. Fazer pequenos jornais é outra. É verdade que às vezes confunde-se com propaganda. Veja, qual é o profissional mais valorizado agora na campanha eleitoral? É o chamado marqueteiro, que nós não temos, a rigor. Nós temos o Fábio Campana. Temos os gloriosos da publicidade, que tem alguma visão do processo. Como se vende o produto? Confundem o produto, o objeto, copo, garrafa de uísque, com o homem. Não aceito isto. Acho que político é um produto, não vai pôr o conteúdo dele. Não quero, não sou antropocêntrico, achando que o homem é a mais digna das criaturas. Não é isso. Até pelo contrário. Mas, o que se vê ali é exatamente a valorização do publicitário, os caras que mais ganham dinheiro em campanha eleitoral. É aí que sai da realidade. O jornalista pega um emprego deste, aí começam a pagar para ele cinco mil reais por mês e o cara pensa que está numa boa. Vai durar dois meses. Se tiver segundo turno, dura quatro meses. Então, é uma fantasia, mas o cara faz currículo. Amanhã tem outra campanha, chama o cara. Então, tem viração. Somos acomodados no seguinte: todo mundo tem emprego público. Esta também é uma tradição.
O Estado do Paraná
O Estado do Paraná nasceu como o melhor jornal do Paraná. Não é mais. Jornal que cai é difícil se recuperar. Fui contratado pelo O Estado do Paraná para escrever crônicas, fazer o que eu gostava, fazer literatura. Eu escrevia uma vez por semana e ganhava a mesma coisa que os caras que trabalhavam o mês inteiro. Eles tinham prazer de estar lá o mês inteiro. O jornal era também uma recreação, uma curtição. Então, achavam que estavam vivendo melhor do que eu, que ia só uma vez por semana levar o artigo. Ia viver aquela “gloriazinha” de escrever crônicas líricas e tal, românticas. Mas ganhava o salário que os caras ganhavam o mês inteiro. E ainda com tudo isto a gente tem um vício de virar a noite. Aquela coisa maluca de Curitiba que em cada boate tinha quatro, cinco argentinas e o jornalista, para ter status, tinha que ter uma amante numa boate. Vivia-se com pouco dinheiro. O cara não precisava estar mordendo ninguém pra sobreviver. Tinha cara que jogava, tinha jornalista que era viciado em jogo. E daí, o cara tinha emprego público e se escorava um pouco. Eu, por exemplo, com esta crise que deu aí, tenho que ajudar a família. Então, venho pra rádio, televisão, para o jornal, escrevo no semanário Hora H. Escrevo porque quebra o galho.
Diário do Paraná
O Diário do Paraná trouxe para Curitiba a diagramação que não existia aqui, trouxe dois caras: Um chamava-se Benjamim Staine e o outro Oscar Miliante (meliante é ladrão). Oscar Miliante era uruguaio e o outro judeu argentino. Vieram quando fechou o jornal La Prensa, da Argentina. A Argentina sempre teve uma tradição gráfica melhor que a nossa, dão um banho. Os jornais têm mais tiragem: Clarin, Página 12. Eles têm uma tradição de cultura de imprensa que nós não temos. Então eles trouxeram isto. Era uma fascinação ver o cara desenhando jornal. Uma coisa assim maluca, a gente ver aquele cara desenhando um jornal, fazendo o lay-out do jornal. Este tal de Benjamim Staine é um cara engraçadíssimo, fazia palhaçadas. Um dia ele estava diagramando e de repente começou a se afogar (Mazza imita o afogamento). O pessoal olhava para ele e perguntava: “o que está acontecendo com você?” (Mazza imita novamente). Daí tirou uma calcinha de mulher de dentro da boca. Ele é hoje marchand de tabloides em São Paulo. Um cara entrava lá, um executivo, um diretor de um banco, ele pegava e colava no sapato do cara, com Durex, uma espora de gaúcho. A gente via em Curitiba um monte de gente com aquela espora. Saía do jornal, lá estava o palhaço com aquele troço. Você fazia do seu trabalho uma brincadeira. A gente ficava até as cinco horas da manhã no jornal. Uma boemia deste tipo de ficar brincando, conversando, bebendo um pouco no bar e dançando. Eu, recém-casado, chegava tarde em casa por não querer abrir mão daquela vida. Querer pegar o jornal como se pega no pão quente. Pegava de manhã, punha debaixo do sovaco, ficava de madrugada na rua. Era este troço.
O Balé do Mazza
Então nós estávamos lá e começamos a dançar com a guria, uma Vatussi, uma negrona bonita e grande, que dançava. Existia muita inveja do pessoal da oficina em relação ao diagramador, porque o diagramador era (a oficina também) intelectualizado. Mas o diagramador já era o cara próximo da hierarquia do jornal, era mais artista. O cara da oficina subiu e viu aquilo e denunciou para o dono do jornal: “tavam aqui com mulherada”. Aí o Adherbal fez uma cena ridícula: “O Mazza, que eu considerava quase como meu filho”, e ele perguntando e um bando de debochados ouvindo aquele papo moralista. E o homem: “Eu não sou anjo, mas no jornal não pode, aqui é demais.” Aí ele chega pro Virmond (este cara que é Secretário da Cultura, Eduardo Virmond) que conta como foi: “Bom, seu Adherbal, logo depois do balé do Mazza…” Quando ele falou em balé do Mazza, acho que na cabeça do cara pintou o Folie Bergère. O balé do Mazza era o seguinte: terminava o jornal, eu e o Benjamim brincávamos de esgrima com as réguas de diagramação em cima das mesas, dançando. Jogava futebol, fazia bola, uma esculhambação. O cara ia lá de dia, de noite era aquela baderna. Era a maneira da gente viver. Cito isto para mostrar como era diferente, apesar do alto profissionalismo do jornal.
Última Hora
Passei pelo Diário do Paraná. Passei pela transformação do Última Hora, que foi uma coisa fantástica em relação à mídia impressa. Tinha uma sucursal em Curitiba. Nós todos fomos processados em 64. Todos fomos enquadrados como subversivos. Perdi o cargo no governo. Teve gente que teve os direitos políticos cassados. O marcante do Última Hora era o impacto que ele fazia, a reação imediata com a cidade. Eu me lembro que tinham uns guris que saíam para dar ferro de carro à noite. Nós chegamos a botar dez mil pessoas na Boca para ver o ferro que nós anunciamos. Um carro fantasma ia atravessar a rua, ia passar pela travessa Tijucas. O jornal era um furor popular. Vivi também esta fase.
Reportagem
Nós não temos uma má imprensa no Paraná. O Estado do Paraná é um jornal com bons profissionais. O Jornal do Estado surpreende, porque é um jornal pobre. Mas é um jornal que na reportagem, às vezes, faz coisas que recupera o estilo, por excelência, do jornalismo, que é a reportagem. A reportagem é o fundamento do jornal, coisa que nós não temos hoje. Você vê as pessoas saindo lá na Folha de Londrina para cobrir notícias, vão fazer matéria com dez, vinte linhas. Você não vê a matéria pesquisada. Mesmo aqui na rádio, às vezes se faz aqui, mas muito raro. É caro para o jornal e a urgência de se fechar o jornal é um troço complicado.
Largar o jornalismo
Nunca, estou com 65 anos, não vou parar de jeito nenhum. Sou um vampiro. Vê estes brotinhos que trabalham comigo aqui? Dizem que essas pessoas podem sofrer influência. Mas elas me influenciam também, me colocam problemas. De repente eu não estou atentando para a modernidade, desde a questão comportamental de como encarar o mundo até o problema técnico. Então vivo isto. É uma coisa que faço com prazer. Aplico como problema existencial. Se você conseguir fazer da tua atividade, com todo o caráter que ela tem de repetição e de mesmice, conseguir fazer um fundamento de alegria e renovação, não precisa de mais nada. Não sou outra coisa do que jornalista. O jornalismo talvez seja a atividade pela maneira de como vivo e vejo que coloca uma visão mais visceral do chamado processo existencial. Nesse rolo todo, na fantasia da realidade, estamos diariamente fazendo uma colagem de coisas da memória, de prospecção, de jogar lá na frente o que vai acontecer. Então, tudo isto enriquece o cotidiano da gente. Isso é uma coisa que não dá para abrir mão. Enquanto eu viver a rotina, vou continuar fazendo palhaçada dentro das redações. Agora não estou em tanta forma, antes plantava bananeira, dançava balé.
Computador
Se botar meu neto lá (no computador) ele tira de letra. Faço as coisas elementares, não tenho este tesão. Têm uns caras que ficaram bobos por causa do computador. Acham que resolve tudo. Não quer dizer que resolve tudo. Claro que é importante, simplifica processos. Se fosse mais organizado nessa parte… O que preciso é de um pouquinho de sorvete, na frente do computador, pra esfriar a “moringa” de vez em quando. Então, a Folha de S. Paulo sugeriu que eu fizesse em casa. Mas, em casa sou um chato. Devo ser um cara chatíssimo. Você já imaginou eu em casa? Não! Eu prefiro provocar os outros, ser provocado. Este é o negócio bom. Claro que nós sabemos que há limites. Se você fizer uma avaliação mais crítica… Mas que jornalismo, se você quiser partir para este lado você vai sofrer muito. Se você começar a carregar demais, aí não tem o que satisfaça. Tudo é questionável, o que nós fazemos é realmente limitado. Há um aspecto provincial no que nós fazemos. Mas o Brasil é um mosaico de províncias, o país é provinciano. Jornais do Rio ficam discutindo onde têm mais violência, se no Rio ou em São Paulo. Então, se você puder encontrar no dia a dia um motivo de satisfação, e é o que acontece comigo, não vejo porque o cara fazer o gênero angustiado, o personagem do Antonioni. Manja aqueles filmes do Antonioni: angústia, solidão?
Dinamismo
Jornal, não abro mão. Jornal é documento, dá um charme. Você tira um xerox, é diferente. O rádio é mais volátil. Só que, tanto que eu repito, você fica lidando com a memória, não é esclerose. Aqui repito muito, é pra deixar bem marcado. Nem tudo que você fala o cara capta. Não é problema da minha linguagem. Claro que há problema, porque às vezes você não conhece o público a quem está se dirigindo. Às vezes o pessoal fala “você usa um linguajar, uma sintaxe, que complica”. Acho que o cara não tem que ter medo disso. Se você se tornar coloquial demais, você mata a língua. O País tem uma língua. O Luís Carlos Martins disse para mim: “O comunicador tem que usar 50 palavras”. Até brinquei com ele: você não conhece mais do que isto. Num certo sentido, ele até está certo.
(Quarto Poder, setembro 1996. p.6-7)


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