Em 2004 o jornalista Fábio Campana lança a revista Ideias.

23 de outubro de 2019 Off Por Redação
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Em 2004 o jornalista Fábio Campana lança a revista Ideias. Feita por “gente que tem ideias”, a revista completa, em 2014, 10 anos de circulação contando com textos assinados por profissionais que se tornaram referência na área de comunicação como Aroldo Murá Gomes Haygert, Belmiro Valverde Jobim Castor, Dalton Trevisan, Jamil Snege, Dante Mendonça, Estrela Leminski, Fernando Pessoa Ferreira, Helio Publielli, Jaime Lerner, Lina Faria, Carlos Zanoni, Margarita Sansone, Moacyr Scliar, Oswaldo Miranda, Ruth Bolognese, Solda, Zé Beto Maciel e Luiz Geraldo Mazza, “a referência maior do jornalismo paranaense”. Integrando a equipe de Ideias desde o seu primeiro número, Mazza escreve, em sua página na revista, sobre economia, política, comportamento, cultura, ética, ecologia, esportes e transporte urbano, entre outros temas. (pesquisa de Selma Suely Teixeira para o livro Luiz Geraldo Mazza e Eloi Zanetti comunicadores do Paraná, de sua autoria)

Ensaio
Luiz Geraldo Mazza
Jornalista
“No declínio das utopias qual é, afinal, a do Paraná?”

Todos falam na morte das utopias, mas percebe-se no cotidiano das pessoas e das instituições que elas ainda pulsam, a despeito do pragmatismo dominante e do caráter mutante e desmistificador da sociedade de consumo e do chamado mundo globalizado.
O Paraná foi campo de operação de utopias como a da República Teocrática Guarani, cuja capital, Ciudad Real del Guairá, ficava onde se situa hoje a cidade de Terra Roxa do Oeste. É um dos momentos épicos da definição das lindes territoriais do Brasil, centrado na “cristianização” dos índios, o que não deixa de ser uma forma violenta de conquista. A pregação se dava em organizações estruturadas em formas claras de divisão do trabalho. Claro que se tratava de utopia na perspectiva do colonizador.
De Cecília a Teresa Cristina
Tivemos outras como a de Giovanni Rossi na Colônia Cecília, em Palmeira, como experiência concreta de anarquismo e cujos componentes, a rigor, viriam a ser linha de montagem da liderança sindical brasileira pela energia do imigrante italiano, cuja saga volta e meia é lembrada nas séries especiais da Rede Globo, como se dá agora com a que recupera os anos 20 e 30 do século passado – Um só coração. E também a do médico parteiro da Casa Real, o francês Jean Maurice Faivre, que tentou uma espécie de socialismo romântico, à moda de Charles Fourieux, com a implantação dos “falanstérios” nas margens do Ivaí – Colônia Teresa Cristina.
Não se pode deixar de considerar a organização “guerrilheira” do camponês em situações como a da Guerra do Contestado em que se mesclaram o messianismo como fator aglutinador na luta pela terra quase nos mesmos termos com que se processou a luta de Antônio Conselheiro com uma visão de guerra de movimentos que de certa forma também se deu na chamada Revolução Federalista com a atuação de gênios militares como Gumercindo Saraiva.
Revolta agrária e o Padre Lebret
Episódios mais modernos como o da revolução agrária do Oeste-Sudoeste no fim dos anos 50 nação tem tanta aura mitológica, mas foram, pelo significado de certas intervenções importantíssimos na perspectiva de ruptura, de certa forma revolucionária, como o ato representado pela substituição de governantes por juntas governativas, algo muito parecido com o voluntarismo do MST. É que, essas juntas, mexiam profundamente na mecânica institucional e que operavam para evitar a anomia pela imposição de governos alternativos, de ocupação.
É mais nos planos de governo, aqueles calhamaços formais que passam pelo filtro da tecnocracia, que se vislumbra o sinal da utopia, normalmente visões ideológicas de como se dá o processo político nacional e internacional e com as respectivas projeções internas. Um desses documentos, um dos mais perfeitos como perspectiva teórica foi o Plano de Desenvolvimento da Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais (SAGMACS) – instituição paulista que aplicava a doutrina do Movimento de Economia e Humanismo do padre J. Lebret.
Caracteristicamente de esquerda, posto que idealístico em seu voluntarismo, tinha uma visão prática de mudança, de revolução até dos assentamentos sociais. O plano foi concebido em 1963, o que não deixa de ser paradoxal porque se dava em meio à tempestade psicossocial que desaguaria no golpe militar. Pela forma como organizava a sociedade para a mudança, já entrava, de saída, em aberto conflito com o pensamento castrador e disciplinador da nova concepção político-filosófica que substituiria a alegre e carnavalesca mistura ideológica que o governo Juscelino Kubitschek e a experiência curta e alarmante de João Goulart engendraram – o que com os nutrientes da Guerra Fria se potencializava.
A teologia da ação
Para se ter uma ideia dos vetos que essa concepção de governo – a embutida no lebretismo, uma das vertentes que abriram caminho a pregação de Joseph Comblin e depois as que viriam com Puebla e a Teologia da Libertação – encontraria junto ao núcleo duro do sistema, basta lembrar que um plano ousado, com ritmo revolucionário, de alfabetização em massa era centrado no método Paulo Freire. O detalhamento do plano era de tal ordem que previa até o número de lâminas para exames de fezes que precisaria ser mobilizado no empenho em identificar e combater as chamadas doenças de massa como verminose, filariose, de Chagas e a esquistossomose, todas com presença forte no território.
Seus seguidores, da mesma forma que os adeptos da dialética marxista, achavam que tinham a fórmula de transformar ideia em ação. Tanto que tentavam suprimir a permanente dicotomia entre “social” e “econômico”, visível com clareza meridiana no governo Lula, com a montagem de um sistema que procurava agregar os dois vetores das ações públicas, privadas e comunitárias. Aliás, essa visão comunitarista é a linha forte do solidarismo cristão. Havia na organização do Estado duas secretarias estratégicas, a de Mobilização Econômica e a de Mobilização Social, dois comitês secretariais que buscavam a interação. Assim, os bancos comerciais (Banestado) e de fomento – Badep, precedido pela Companhia de Desenvolvimento Econômico do Paraná (Codepar), Copel, secretarias da Fazenda e da Indústria e Comércio alimentariam o econômico e as pastas da Educação, da Saúde, do Trabalho, da Segurança e da Cultura figurariam no social.
Globalização e utopia
Quando a ideologia nacional-trabalhista, como distinguia o sociólogo Hélio Jaguaribe, levou a pior no confronto com a liberal-cosmopolita em 1964, dá-se o início do mais recente ciclo de globalização. Em muitos momentos do regime militar o fator nacionalismo se impunha (plano nuclear) e às vezes levava a pior (o anúncio contra a vontade de Geisel aderindo aos contratos de risco na exploração do petróleo). O melhor período de doutrina e práxis, em termos regionais, foi o de Ney Braga, mas em alguns dos seus sucessores como Parigot de Souza, esse com ênfase na poupança interna e no planejamento, criaram as pré-condições para o deslanche de gestões frutuosas e imaginativas como a de Jaime Canet Junior, que implantou mais de cinco mil quilômetros de asfalto subdimensionado que acabaria se transformando em modelo para o Banco Mundial.
De uns tempos para cá as ações de marketing acabaram mais relevantes do que as especulações epistemológicas: Duda Mendonça ganha longe do filósofo, seja ele Marilena Chauí ou algum mestre do Cebrap ou ainda o nosso Emmanuel Appel – discípulo do mestre José Arthur Gianotti. Tanto o governo Jaime Lerner como o atual de Requião se distanciaram do pensamento e da filosofia. São mais ocupados com metas físicas do que com metafísica, embora acanhados na dimensão desses projetos, tanto que hoje pouco se valem de feitos em obras (quilômetros de asfalto, de linhas de transmissão de energia, de redes de água e esgoto, número de casas populares ou de vilas rurais, museus) até porque o Estado brasileiro se encontra em aberta insolvência e amarrado pelas normas da Lei de Responsabilidade Fiscal.
A nossa utopia
A utopia não se degrada com fenômenos como o da globalização. Aliás, não custa lembrar na leitura do Manifesto comunista que Marx mostra, já naquele momento, como a mundialização se impunha e a perspectiva do valor nacional e regional perdia densidade. Nem por isso deixou de, no seu diagnóstico, indicar o caminho da revolução como alternativa única ao proletariado. Sua profecia não emplacou, mas sua teoria do conhecimento, seu método de interpretação da história ainda, apesar da queda do muro e do fim do “socialismo realmente existente”, que não escondia o Estado Policial, ainda é uma tonalidade forte na perspectiva da reconstrução (quantos embarcaram nessa!) do homem e, por extensão, da sociedade.
Uma utopia até ajuda como a ponte entre a realidade e o vir-a-ser, entre o possível e o desejável. Assim foi com Thomas Morus (a ilha da Utopia, cuja definição lembra, às vezes, o rigor de memorial descritivo de arquiteto e de urbanista) com a Cidade-Ouro de Campanella e com a Atlântida de Bacon. Se elas foram construídas na Renascença, dá para acreditar que na sequência de tantos sinais de decadência, de repente chegue um momento de luz, o que não deixa de ser a trilha de uma utopia, nem sempre a busca do já vivido.
(Ideias, março de 2004. p. 18)

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