Em uma das colunas fixas do jornal hora H, Memória Surreal, mais tarde denominada apenas Surreal, Luiz Geraldo Mazza registrava fatos ocorridos em redações de jornais, ruas e diferentes ambientes de Curitiba…

8 de outubro de 2019 Off Por Luiz Geraldo Mazza
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Em uma das colunas fixas do jornal hora H, Memória Surreal, mais tarde denominada apenas Surreal, Luiz Geraldo Mazza registrava fatos ocorridos em redações de jornais, ruas e diferentes ambientes de Curitiba como, por exemplo, o hábito do fotógrafo Milé Fogiatto de guardar em seus bolsos as frutas importadas que ornamentavam mesas dos banquetes que frequentava a trabalho; a greve dos jornalistas que paralisou todos os jornais da cidade; o comando de palavras de ordem na greve dos garis; o não carnaval em Curitiba; os tipos populares como Maria do Cavaquinho; um depósito “diferente” feito em uma agência bancária na Av. Luís Xavier; a visita de Assis Chateaubriand ao Diário do Paraná; o seu convívio com diferentes personalidades do cenário local e nacional; as agressões a jornais de Curitiba e os velhos cinemas da cidade. (pesquisa de Selma Suely Teixeira para o livro Luiz Geraldo Mazza e Eloi Zanetti comunicadores do Paraná, de sua autoria)

Memória surreal

Em 1953 havia dois ou três congressos por dia em função das comemorações do Centenário de Emancipação Política do Paraná. O fotógrafo Milé Fogiatto era um dos mais requisitados e tinha o hábito de colher as frutas importadas que ornamentavam os banquetes e colocá-las no bolso para comer depois. Certa ocasião – isso eu testemunhei pessoalmente – fazia a colheita nas toalhas de linho da mesa de honra de um Congresso de Cardiologistas no Graciosa Country Club quando dona Flora Munhoz da Rocha, a primeira dama, o convocou para fazer um flagrante das congressistas e esposas de congressistas. O Milé, com seus gestos naturalíssimos, subiu numa das poltronas, meteu a mão no bolso à procura de uma lâmpada e de lá retirou uma reluzente pera importada. Passou a língua na parte afilada do fruto, como fazia com as lâmpadas do flash e fiquei, ao lado, torcendo porque um bom caráter como ele merecia que houvesse o contato e a pera, como um ato de prestidigitação, iluminasse o recinto. Houve o silêncio, a espera para o clic, e Milé percebeu a manobra e procurou nos bolsos uma nova lâmpada e o registro foi feito. Se houvesse qualquer perturbação pelo menos não seria por falta de assistência médica. Havia mais cardiologistas na sala do que peras.
Luiz Geraldo Mazza
(hora h, Mazza, 22 a 28 de abril de 1996. p.10 e 11)

Memória surreal

Em 1963 fizemos (a proposta foi minha em assembleia conjunta de jornalistas e gráficos) a única greve no Brasil que deixou uma cidade sem jornais por, praticamente, três dias. Fizemos, ainda, um jornal dos grevistas nas oficinas do Diário Popular, cedidas pelo Abdo Aref Kudri.
Há muito folclore sobre o enfrentamento diante do Diário do Paraná como um caminhão enorme do Corpo de Bombeiros que foi lá para dissolver o piquete que fechava a rua José Loureiro esquina com Murici. Vários jornalistas estavam praticamente sob as rodas da viatura num ato que lembrava a resistência na Índia liderada por Gandhi. Uma caricatura do ocorrido é a de que o Valmor Marcelino teria trazido uma bandeira russa para o piquete e que eu, ao vê-lo, pedi que a substituísse pela antiga, a brasileira.
A piada feita com o espírito sacana da Guerra Fria, para dar uma conotação que não havia, foi muito repetida. Só para clarear: a ala mais à esquerda queria um encontro, em fim de tarde, com o então Ministro Amauri Silva, do Trabalho, que é paranaense, para acertar as pendências salariais. Na proposta, contei com apoio até de integralistas, radicais de direita.
Tentei evitar, com a intervenção,a exploração do episódio que, hoje, feita uma revisão, considero radical pois, como vice-presidente do Sindicato, inúmeras vezes busquei o caminho mais curto do entendimento direto com os patrões.
Naquele caso, como está narrado no livro do Samuel Guimarães da Costa sobre a Assembleia Legislativa, a mediação dos deputados foi importantíssima, inclusive para evitar a repressão. Tanto que alguns deles (Luís Alberto Dalcanale, Agostinho Rodrigues), mais o homem da Segurança, Ítalo Conti, entraram na lista negra do Stresser, dono do Diário do Paraná.
Luiz Geraldo Mazza
(hora h, Mazza, 20 a 26 de maio de 1996. p.20 e 21)

Memória surreal

Houve um tempo em que me achava disponível de tal forma que não perdia movimento de rua, agito de estudante, agito de operário e, até, de escola de samba.
Um dia houve uma greve diferente em Curitiba: a dos garis da Prefeitura. Àquele tempo servidores públicos e não “terceirizados” como hoje. Percebi que eles não tinham a menor experiência e na saída da massa (havia umas duas centenas de trabalhadores) passei a ensiná-los a usar palavras de ordem. Dei uma de Karabichewski e, em três vozes, sugeri que cantassem “estamos com fome, estamos com fome”. Eu no meio dava a dica e dizia junto “estamos com fome” quando vi um colega de Universidade (eu já estava formado em Direito há mais de 9 anos), em plena Rua XV, no local em que funcionava a loja Singer, encostado na porta e fazendo, dirigido a mim, um movimento de cabeça como se fosse um espanto. Quase volatizei.

Outra que revela o empata foda que é o curitibano de um modo geral aconteceu num carnaval e com a figura mais popular de Curitiba: o mordedor com PHS, Alvino Cruz, o Esmaga (esmaga-bosta), em plena Praça Zacarias. Jaime Lerner, com a mania de criar em cima do que já foi criado, resolveu tentar tirar do carnaval curitibano aquele seu traço tumular e importou um “trio elétrico”. Eu estava na Praça, ao lado do Esmaga, quando o carro iluminado passou: foi um auê, uma vibração, capaz de despertar defunto, o que mais seria indicado para o caso curitibano. Me animei e passei a dar uns passos, abraçado ao Esmaga. Quando esse, revelando o pudor, a intimidação, a introversão curitibana, me perguntou com olhar súplice: “Será que fica bem pra nós?” É por isso que não temos Carnaval. Não fica bem pra nós.
Luiz Geraldo Mazza
(hora h, Mazza, 27 de maio a 2 de junho de 1996. p.20 e 21)

Memória surreal

Falei, outro dia, do movimento grevista dos garis de Curitiba, do qual participei como animador e orador (necessariamente prolixo). A passeata percorreu a Rua das Flores e terminou na sede do Sindicato dos Comerciários ali ao lado do Colégio Santa Maria. Escalado como um dos oradores revelei, no meio do discurso, que havia um agente da DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social) no recinto. E, de fato, quem fazia o papel era, por sinal, um amigo das peladas do Kaminski, o Isabelino que jogou no Vasco, na Ponte Preta e no Atlético Paranaense. Como todo agente, ele buscava mostrar-se à vontade e até votava as propostas.
Coloquei emoção no papo e disse que ele estava lá como policial (à primeira revelação quase deu tumulto, mas eu acalmei a massa) e que de tanto ouvir as propostas que votava mecanicamente para dissimular que era um membro da assembleia, estava agora votando consciente e com a maioria. O público bateu, mas o Isabelino, pê da vida com a minha molecagem, dirigiu-se para uma cortinada janela onde me emitia sinais de “top-top”, batendo com a mão direita na rodinha da esquerda. Esclareça-se que não houve retaliação de sua parte porque, pior do que isso, era penetrar pelas extremas como ponta no meio de quatro adversários em marcação cerrada. E ele passava, como tirou de letra o minuto de constrangimento daquela assembleia. Ninguém ficou sabendo de quem se tratava e boa parte acreditou que a polícia estava com os garis e não abria.
Luiz Geraldo Mazza
(hora h, Mazza, 3 a 9 de junho de 1996. p.20 e 21)

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