Em hora H, Luiz Geraldo Mazza registrou, na coluna Surreal, fatos ocorridos em redações de jornais, ruas e diferentes ambientes de Curitiba.

8 de outubro de 2019 Off Por Redação
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Em hora H, Luiz Geraldo Mazza registrou, na coluna Surreal, fatos ocorridos em redações de jornais, ruas e diferentes ambientes de Curitiba. (pesquisa de Selma Suely Teixeira para o livro Luiz Geraldo Mazza e Eloi Zanetti comunicadores do Paraná, de sua autoria)

Surreal

Benjamim Steiner, o diagramador argentino oriundo de La Prensa, o primeiro do
Paraná, gostava de encenações teatrais: você com o dedo, em forma de revólver, dava um “tiro” em sua direção e ele caía no meio da calçada, às vezes no interior de uma loja derrubando manequins de cera aos quais “morria” abraçado e beijando a boca, antecipando em décadas as vanguardices de Jean Luc Godard no filme Acossado em que Jean Paul Belmondo cai morto na calçada e depois de falecido solta fumaça do cigarro pela boca.
Havia uma senhora da alta sociedade apelidada de “Virgem Louca” e que vivia a importuná-lo querendo declamar versos e expor seus talentos. Um dia, bem na frente do Palácio Avenida, ela cercou o Benjamin e ele aprontou uma cena melodramática passando por marido dela e reclamando dos seus gastos, seus excessos em berloques e joias. E com seu portunhol apaixonado, depois de dizer que não aguentava aquele ritmo de vida com tamanha prodigalidade, sem noção de quanto ele ganhava, apanhou a bolsa finíssima, que ela portava, como se buscasse um ícone para acentuar a dissipação dessa fortuna duramente conquistada (ele tinha a voz embargada como um sofredor que labuta o dia inteiro para empiriquitar a “perua”) e lançou-a dramaticamente ao chão. Aí, já, os aplausos entusiasmados da pequena multidão, fortemente machista, saiu glorificado como um ator aplaudido em cena aberta. E merecia.
Luiz Geraldo Mazza
(hora h, Mazza, 14 e 16 de novembro de 1996. p.7)

Surreal
Um depósito diferente

Havia uma agência bancária na Luís Xavier, onde está situada hoje a Livraria Curitiba, que foi alvo de uma experiência inédita, pois afinal os bancos têm sistema de prevenção contra roubo, fogo, assalto, água, mas jamais contra um depósito fecal. É que um homem doente, com problemas psíquicos, logo apelidado de “ferry boat de cargas” (para opor-se ao “de passageiros”, um engenheiro sanitarista que anda de um lado para outro batendo papo com as pessoas como se as conduzisse na sua viagem ininterrupta), pois levava nas costas sapatos e jornais velhos num saco de aniagem, parou diante da principal caixa do estabelecimento e depois de olhar fixamente para a funcionária e já com um ar meio de samaritano fez ali as suas necessidades, largando os dejetos no chão. Foi a maior correria, pior do que incêndio ou assalto. É que naquelas coisas é sempre possível imaginar algo, mas naquela de jeito nenhum. Tanto que da perplexidade se chegou ao imobilismo, tal qual a esquerda brasileira hoje em dia. Na porta do estabelecimento eu e o Fernando Veloso, que a tudo assistíamos, nos rolávamos de rir. Dois dias depois Stanislaw Ponte Preta, em sua coluna no jornal Última Hora, no qual eu também trabalhava, falava sobre o depósito inusitado que haviam feito no banco.

Maria do Cavaquinho
Fui à Lapa junto com o Caco Lacerda para visitar o Sérgio Leone, então prefeito da cidade, recentemente derrotado em eleição. Bem ao lado da Prefeitura de repente me aparece uma figura familiar da “Boca Maldita” de Curitiba dos anos 40, 50 e 60, a Maria do Cavaquinho que fazia o maior escarcéu, fechava o trânsito na Rua XV (que tinha dois sentidos, imaginem) ao lançar-se deitada no asfalto como se fosse militante do Gandhi na Índia ou a ameaçar aos que a afligiam com os objetos que revezava nos braços ora um guarda-chuva, ameaçador como um gládio, ora a violinha que carregava e não sabia tocar.
Dela há histórias incríveis como a de fazer “bicicleta” transformando sua mão direita em selim do agarrar os transeuntes pelo saco. E isso era feito com figurões, desembargadores e empresários. Parecia coisa de filme de Jacques Tati aquela pequena mongoloide, que parecia até um esquimó, fazendo a burguesia “pedalar” sob uma tortura que doía mais pelo papelão da cena do que pela dor.
Ela deixou tanta gente condicionada que quando houve falar desse hábito da bicicleta o cidadão já põe, defensivamente, a mão nas partes baixas como se estivesse numa “barreira” em lance fora da área com um chutador do nível do Neto, do Rivelino, ou do Nelinho, aquele que atravessou o Mineirão com um sem pulo, isso é lançou a bola acima das arquibancadas.
Luiz Geraldo Mazza
(hora h, Mazza, 29 de novembro a 5 de dezembro de 1996. p.6 e 7)

Surreal
Chatô, o chato?

Chego na redação num dia de festa nos associados, o encontro no meio da roda, o grande capitão, Assis Chateaubriand. A maioria está de terno e gravata, eu esportivo demais. Chatô cumprimenta a todos e diz “boa noite”, para mim, “bom dia”.
Nunca pensei que fosse trabalhar para aquela “gente do imperialismo”, tanto que meses antes de ir para o Diário do Paraná escrevi uma crônica em O Estado do Paraná com o título “O chato Chatô”.
Só víamos o lado bandido do capitão, sua defesa, já àquele tempo do cosmopolitismo com uma audácia superior à de Roberto Campos e outros da mesma linha. Ele prensava capitalistas e políticos para tomar-lhes dinheiro na compra de obras de arte que iriam formar o Museu de Arte, cujo conservador, Pietro Maria Bardi, as autenticava. Uma espécie de Robin Hood voltado às pinacotecas.
Tentou tomar uma grande de Ermírio Moraes, o pai, e este negou. Chamou-o de “batateiro”, viciado em jogo, por todos os jornais “associados” ou mancomunados, como diziam os esquerdistas como Osvaldo Costa, Gondin da Fonseca, Otávio Malta.
Não adiantou a sequência de porradas. Então uma satânica inspiração levou Chatô a anunciar no Diário de São Paulo que o capitão de indústria tinha chegado da Europa com um remédio miraculoso para a lepra e que atenderia os interessados na sua mansão nos Jardins. Saiu na primeira página e no dia seguinte aquela multidão de mutilados e doentes se postava diante do portão da residência do empresário como se fosse uma cena extraída de um romance de Curzio Malaparte.
Luiz Geraldo Mazza
(hora h, Mazza, 7 a 13 de março de 1997. p.14 e 15)

Surreal
O jornal empastelado

O Diário da Tarde volta e meia era alvo de agressões: no passado distante um militante anarquista pintou uma bola de bocha como se fosse uma bomba e ameaçou acendê-la quando as tropas cercaram o jornal, anunciando que, no mínimo, derrubaria uns dez prédios da vizinhança. A polícia recuou. Houve nos anos cinquenta, a tentativa de agressão a Roberto Barroso, o pai, polemista incrível, a cambuí em plena Rua XV. Mas um dia as iras se voltaram contra a Gazeta do Povo que condenara, aliás com sobras de razão, a molecagem da banda do Ginásio Paranaense que tocou a “conga”, ritmo latino da época, diante do palanque das autoridades militares em pleno Estado Novo. A rapaziada se mobilizou e se dirigiu para o jornal com o intento de depredá-lo. O mestre Francisco Ribeiro, diretor e educador à antiga, foi acompanhando o séquito, fazendo alertamentos em latim como se fosse um Cícero diante da Catilina e com isso segurou a pleno ignara bem perto do jornal.
Luiz Geraldo Mazza
(hora h, Mazza, 14 a 20 de março de 1997. p.14 e 15)

Surreal
O velho Palácio

Cine Palácio tinha uma face dupla: a elegância clássica das frisas e a rusticidade do “puleiro”, cuja entrada era pela Voluntários da Pátria. Houve cenas de matar (inclusive aquela do acidente com o pessoal que estava na fila e em que tivemos vítimas fatais) de verdade e as de matar alegoricamente como quando soltaram um urubu no interior da sala de exibições, o que deu margem a pânico, o lançamento de ácido sulfídrico, isso sem falar nos arremessos de cafajestada, que ia no “puleiro”, de pacotes com restos fecais anunciados com o grito “lá vai bosta”.
Nos tempos clássicos – e isso corre à conta do folclore – houve um espetáculo com a dupla de artistas internacionais Jan Kiopura e Marta Eggerth. Em determinado momento, Jan Kiopura que empolgava a etnia eslava, ao receber uma corbelha foi agradecer curvando-se para o público e o pano de cobertura do teatro acabou derrubando o “chinó”, a sua cabeleira.
Luiz Geraldo Mazza
(hora h, Mazza, 28 de março a 3 de abril de 1997. p.14 e 15)

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