Em hora h Luiz Geraldo Mazza falou também sobre a campanha dos 12 dias feita por Jaime Lerner quando candidato à Prefeitura de Curitiba; sobre o “lado obscuro do governo”; sobre “os gabirus do Cine Luz”, e sobre as “façanhas do Pasquale”.

8 de outubro de 2019 Off Por Luiz Geraldo Mazza
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Em hora h Luiz Geraldo Mazza falou também sobre a campanha dos 12 dias feita por Jaime Lerner quando candidato à Prefeitura de Curitiba; sobre o “lado obscuro do governo”; sobre “os gabirus do Cine Luz”, e sobre as “façanhas do Pasquale”. (pesquisa de Selma Suely Teixeira para o livro Luiz Geraldo Mazza e Eloi Zanetti comunicadores do Paraná, de sua autoria)

Mazza
12 dias 12 meses

Há mitificação demais em torno da campanha dos “12 dias” como de resto em tudo que envolve a figura de Jaime Lerner. Quando da decisão surpreendente da Justiça Eleitoral que permitiu a candidatura de Lerner, fora de qualquer parâmetro anterior, já o candidato Enéas Faria estava bem à frente de Maurício Fruet e, em terceiro lugar, aparecia Algaci Tulio e em quarto Airton Cordeiro. Como três candidatos desistiram – Enéas, Tulio e Airton – não poderia dar outra coisa. Usou-se o cronograma apenas para criar uma atmosfera de superação do tempo passado que, inegavelmente, trouxe entusiasmo redobrado à campanha, o que foi vertido, também, em boas soluções técnicas e propaganda.
De outro lado, havia o resíduo da campanha anterior quando Requião bateu Lerner por menos de 25 mil votos em meio a denúncias de invasão de Curitiba por eleitores do interior tangidos por Deni Schwartz que, como Secretário de Transportes, arrumou o deslocamento de mais de 50 mil militantes para “boca de urna”. Muitos desses chegaram a votar, conforme se alegou na época, sugerindo fraude que se repetiria na eleição para governador com o estelionato do pistoleiro “Ferreirinha”.
Esses “12 dias” usado como fetiche, lembram também o cronograma do golpe dos bolcheviques na Rússia magistralmente descrito pelo jornalista e escritor norte-americano John Reed. Enfim, propaganda, embalagem, eficientes, poucas verdadeiras e de escassa originalidade.
Mistificação e mitificação, tal como ocorre em tudo que forma a atmosfera leneriana.
Luiz Geraldo Mazza
(hora h, Mazza, 22 a 28 de abril de 1996. p.10 e 11)

Olho nos classificados: o “terror” à solta
Luiz Geraldo Mazza

“A hipocrisia é uma homenagem que o vício empresta à virtude” (La Rochefoucauld)

Lupa na mão nos classificados dos jornais. Essa será daqui para a frente a postura normal de políticos interessados em saber o lado supostamente obscuro do governo. Nestas últimas semanas tivemos vários recados, cifrados, dando o resultado de licitações no governo estadual e no de Curitiba.
O primeiro episódio, o da licitação do Prosan I, denunciado pela Folha de Londrina, em reportagem de Sérgio Wesley, teve ampla repercussão e levou o governador a anular o procedimento, embora isolando a Sanepar de qualquer responsabilidade. Como o ato praticado – acerto prévio entre empreiteiras através da sua entidade, a APEOP, Associação dos Empreiteiros de Obras Públicas do Paraná – é normalíssimo, praxe adotada regularmente em todo o país. E o episódio da ferrovia norte-sul no governo Sarney foi paradigmático, já que houve o cancelamento por causa do anúncio com o resultado da concorrência mas, na continuidade, se deu o mesmo, apenas com a troca de lotes para os participantes, uma farsa monumental.
O Banco Mundial entrou em contato com a Sanepar e fez os ajustes: sugeriu que nova licitação fosse realizada sem tardar e que se reduzisse o número de 17 lotes para dois com o que se concentraria a questão patrimonial e inabilitaria às pequenas que são as que “chiam” e denunciam porque, todos, sem exceção, estão “matando cachorro a grito” neste governo em obras.
Da Sanepar à Copel
Se em 26 de maio a Folha criava o estardalhaço com a publicação parcial dos resultados em função até de haver sido concluída a pré-qualificação, restando a etapa de oferta de descontos, àquele momento, procedida e ainda regularmente não conhecida, no dia 6 de julho deste mês foi a vez da Gazeta do Paraná, de Cascavel dar indicações, em mensagem cifrada à base também no caso anterior de anagramas, inversão de sílabas das firmas do Onaireves, Severino invertido.
O governador mostrou extrema fraqueza e fez concessão ao espetáculo ao tomar a atitude contraditória, já que absolvia a Sanepar de qualquer responsabilidade e parecia aceitar as razões de denúncia jornalística que sugeria formação de cartel, e que só a hipocrisia esconde já que se trata de normalidade aceita, legitimada, inclusive no Tribunal de Contas e em todas as instâncias administrativas e judiciais. Basta lembrar que um dos mais rumorosos episódios da história recente foi o da concorrência da hidrelétrica de Segredo, na qual a CR Almeida, colocada em último lugar, quase não alcançando a pontuação classificatória, teve, por decisão da justiça federal, adjudicada a obra (o canal de desvio, primeira etapa) em seu favor. Os concorrentes, diante do escândalo armado pelo empreiteiro paranaense, que costuma acionar seus advogados em todo o país, “arrepiaram carreira” e abriram mão de qualquer ganho. Costuma-se dizer que em situações conflitivas, “racham-se” os afazeres e ganhos.
A guerra total, no entanto, não se daria nessa fase, embora a Copel devesse ter levado até o fim o empenho em defender o primado do seu direito de anular, a qualquer tempo, a licitação, o que é pacífico em função da soberania como promotora do processo, uma vez que até ali não afetaria qualquer direito. Foi na gestão de Álvaro Dias e sob o comando do Presidente da Copel, Francisco Gomide, que a questão se agravou, pois a CR Almeida pretendia continuar na obra e utilizava todos os recursos judiciais para não acatar licitações. Um consórcio paranaense tocou a obra (CESB-SINODA e DM, de Darci Fantin, hoje o maior empreiteiro do Paraná que absorveu, entre outras organizações, a Rodoférrea) e Cecílio Almeida continuou brigando em juízo e fora dele como permanece até hoje.
Tática de terror
O uso dos “classificados” em jornais para jogadas políticas e administrativas, para gozações e maldades, é uma velha prática. Quando Saul Raiz foi candidato ao governo contra José Richa publicaram um classificado colocando à venda a sua casa no Jardim Social. Como o maior estuário de classificados é a Gazeta do Povo, um dos maiores do país, aí volta e meia aparecem essas mensagens, às vezes não muito sutis como as perfídias contra jornalistas tal qual se aprontou contra o falecido Aramis Millarch ou conselheiros do Tribunal de Contas questionando suas diárias e vantagens em viagens para o exterior.
Em passado mais remoto há o episódio clássico de uma senha de morte entre os classificados: o aviso de que a “cadela” Joana tinha deixado a casa e abandonado os filhinhos em fase de amamentação teve o clareamento e a “chave” revelada com o assassinato de uma mulher com o nome atribuído à cachorrinha, alguns dias depois do sinistro recado.
Diante da frequência com que se usam os classificados e da notória fragilidade do governo (a licitação da Copel foi também cancelada, embora sua diretoria alegasse que tudo decorreu de erros de especificação relativamente a monitores de 14 polegadas) espera-se um surto de terror e ao mesmo tempo de provocação.
A partir da anulação da concorrência da Sanepar, Lerner se obrigaria a mudar inteiramente os rituais e a “cultura” sedimentada, o que não tem pulso e muito menos disposição para fazer, já que, ao contrário de Requião, não cultiva o conflito. O governante anterior forçava a baixa nas licitações desde os tempos da Prefeitura, o que criou um problema muito sério na qualidade dos serviços. Para compensar, no entanto, não se pode negar que abriu o “leque” da participação às chamadas empresas pequenas principalmente no DER, o que não constava da tradição.
(hora h, Mazza, 15 a 21 de julho de 1996. p.28)

Opinião pessoal
Os gabirus do Cine luz

Por estar situado na Praça Zacarias, num verdadeiro estuário dos rios que cortam subterraneamente à cidade, o Cine Luz era alvo das correrias de ratos em meio às suas sessões vespertinas ou noturnas. O que impressionava era o tamanho dos ratos, verdadeiros gabirus, uma das coisas por sinal que o Jaime Lerner conservou em seus três períodos administrativos na cidade ao lado do casario antigo.
Como esses ratos alcançavam as pernas dos espectadores volta e meia havia protestos, gritos e até desmaios. Uma noite um cidadão foi se queixar (e àquele tempo não se falava em direitos do consumidor) para o gerente e este deu o repique de imediato: “O senhor queria pelo que pagou uma corrida de touros?”
Os ratos hoje aparecem mais no calçadão justamente na área em que funcionam os “cachorros-quentes” tradicionais, petiscarias e restaurantes. Só houve uma pequena melhora: eles são bem menores do que os de antigamente e não é por falta de esgotos e sujeira.
(hora h, Mazza, 21 a 27 de março de 1997. p.15)

Mazza
Façanhas do Pasquale

Foi um choque para boa parte da sociedade curitibana a notícia do despejo judicial do João de Pasquale do tradicional bar do Passeio Público. É que os amigos dele, de todos os governos, estadual e municipal, sempre evitaram sanções por não pagamento de alugueres. Dessa feita nem a vinculação do Pasquale com tanta gente do governo funcionou e ele acabou despejado. Com isso fecha-se um ciclo da história do Passeio Público, que girava em torno daquele estabelecimento. Desligado, por seu estilo romântico de vida, Pasquale foi, também, vítima de sua generosidade extrema, pela sua preocupação em assistir garçons que ganham o mínimo e tinham mais de uma mulher. Ele achava isso apropriado à vida. As estórias do Pasquale são todas positivas, a despeito desse final melancólico e a mais clássica é aquela em que ele e o Elba de Pádua Lima faziam simulações táticas em cima da mesa do bar e na ausência de botões, como o Tim preferia, usaram empadinhas, rissoles e croquetes. Volta e meia um dos times era desfalcado de um dos “atletas” comidos pelos dois técnicos. Tim respeitava Pasquale como conhecedor, tanto de futebol como de empadinhas.
(hora h, Mazza, 11 a 17 de março de 1997. p.15)


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