A guerra do pente, Sócrates e Pilatos, Dignidade do palavrão e Os sobressaltos de 64 também foram temas de Luiz Geraldo Mazza no jornal hora H, em 1997.

8 de outubro de 2019 Off Por Redação
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A guerra do pente, Sócrates e Pilatos, Dignidade do palavrão e Os sobressaltos de 64 também foram temas de Luiz Geraldo Mazza no jornal hora H, em 1997.(pesquisa de Selma Suely Teixeira para o livro Luiz Geraldo Mazza e Eloi Zanetti comunicadores do Paraná, de sua autoria)

As amargas, não
A Guerra do Pente (I)
Quando a multidão tomou conta das ruas de Curitiba no andamento da Guerra do Pente e parecia ter sitiado a cidade, isolando a Polícia Militar e obrigando a intervenção do Exército, vi, da janela do Diário do Paraná, um magoto de manifestantes e que se dirigia, em sua loucura desenfreada, atrás de novas lojas de árabes para “quebrar”.
Um dos meus sonhos juvenis – fora o de sair glorificado de um campo de futebol por haver marcado um gol da vitória (e isso aconteceu algumas vezes, modestamente) – era o de um dia, principalmente em função dos delírios da Faculdade de Direito, controlar a multidão e dirigi-la emocionado.
Quando vi o pessoal uivando dobrar a esquina da Marechal Floriano em direção à José Loureiro, dei o grito ( e já me arrepiava com a ideia de dar o recado para a turba e torná-la submissa para depois me deixar levar de roldão por ela para o que desse e viesse – algo como uma catarse), “povo de Curitiba”. A princípio a puteleia parou, olhando em minha direção. Mal comecei a arenga, que eu acreditava seria superior à dos concursos de oratória, e um cara mais decidido dentre os plebeus atirou uma pedra no luminoso do jornal, apagando-o inteiramente. Apagou a luz e com ela o meu discurso.
A Guerra do Pente (II)
No terceiro dia do estado de sítio não declarado pela “guerra do pente” (o inventor de “O seu talão vale um milhão” foi Anibal Khury com o nobre propósito de aumentar a arrecadação e a causa do distúrbio foi porque um negociante árabe, como o deputado, havia se recusado, e com razão, a dar uma nota pela compra de um pente), o Exército foi obrigado a intervir pois a Polícia Militar não controlava o distúrbio que assumia características de guerrilha, ainda mais com as reportagens passionais do repórter Osmann de Oliveira, da rádio Cultura.
Consta que, um repórter em tom dramático, dizia coisas mais ou menos assim: “segundo informações que recebemos uma criança de quatro anos teria sido morta a patadas de cavalos dos milicianos. Se a notícia for confirmada, o ‘furo’ é nosso”.
Outro insistia em chamar os postos de observação: “Atenção, posto um”. E continuava a narrativa sem receber a comunicação da área solicitada. E pedia outros: posto dois, posto três. De repente voltou ao posto um e veio lá da técnica da rádio, a voz tímida do operador como quem se desculpa: “O posto um é o senhor!”
A Guerra do Pente (III)
Quando os carros blindados que vieram do Boqueirão para ações dissuasórias no centro da cidade (raros foram os árabes que não tiveram seus estabelecimentos depredados), o que mostrava o despreparo das forças armadas para esse tipo de atuação, vários deles empacavam no meio do caminho, as lagartas se soltavam das rodas e o tanque de guerra ficava tão eficaz quanto um tanque de lavar roupa.
E foi em meio a essa dramaticidade toda que um “gozador” bem ao estilo curitibano, ofereceu-se a um oficial que dirigia um blindado que parara na esquina da Rua XV com a Marechal Floriano e perguntou se o major gostaria de ser ajudado com um “empurrãozinho”.
(hora h, Mazza, março de 1997. p.13)

As amargas, não
Sócrates e Pilatos
Há uma polêmica nos meios intelectuais em torno de quem deveria preencher uma das cadeiras de cultura clássica da Filosofia católica: disputam-na o gênio Bruno Ennei e o religioso espanhol Luigi Castagnola. Há uma divisão rígida: os catolicões não querem o Ennei por seu humanismo radical (aí se inseriam desde o diretor da escola até a maior parte do corpo docente), mas os mais antidogmáticos (Loureiro Fernandes, Temístocles Linhares, Wilson Martins, Munhoz da Rocha) o preferiam. Armada a polêmica em torno da disputa pela cadeira, o editor de artes do Diário do Paraná, o crítico (de nome nacional) Temístocles Linhares, escreveu um artigo achando um absurdo que uma universidade que tivesse um mínimo de auto respeito deixasse de levar para seus quadros uma cultura clássica como a de Bruno Ennei.
Havia um artigo na mesma página com posição exatamente contrária, defendendo o erudito mestre espanhol, mais à direita. O diagramador ao ver os dois artigos começou a rir. Era o Benjamin Steiner, versado em artes, e que olhava aquela dialética como um feito excepcional de jornalismo ainda que não voluntário.
O diretor do jornal, Adherbal Stresser, tinha viajado, mas pediu para mim que fiquei encarregado do assunto que nada saísse a respeito da polêmica porque não lhe convinha atritar-se com os liberais e, muito menos, com os conservadores. Expliquei isso ao Benjamin que, frustradíssimo, reclamou:
– Bem, já que não pode sair, faço como Sócrates e lavo as minhas mãos.
O diretor do departamento comercial, versado em artes também e que gostava de intervir nesses colóquios, Edison D’Amaro, corrigiu o Benjamin.
– Como Sócrates, rapaz? Você quer ser referir, naturalmente, a Pôncio Pilatos…
Benjamin, com o seu clássico muxoxo, um tique identificador, sacou com o seu portunhol como quem puxa o revólver em primeiro no tiroteio:
– E vai querer me dizer que Sócrates não lavava as mãos?
(hora h, Mazza, 7 a 13 de março de 1997. p.6-7)

As amargas, não
Dignidade póetica do palavrão
Um mergulho lírico na infância do meu tempo e de alguns mais velhos, 10 a 15 anos a mais, mostra que a palavra interdita, o palavrão tinha um efeito mágico e libertador nos lábios inocentes ou maliciosos dos adolescentes e meninos e com a mesma chispa de fúria e catarse, imaginada por Nelson Rodrigues e dita por Dercy Gonçalves.
Nada pior, por exemplo, do que ser chamado de “viado”. Não é “veado”, mas “viado”. Quando alguém era assim chamado havia uma espécie de jogos florais em resposta que vinha aos borbotões: “Viado é o pai do macho// eu por cima, você por baixo//e conforme o jeito//você com as costas no meu peito//”. E as rimas prosseguiam, num repique terrível contra o agressor.
Resposta a uma provocação qualquer vinha com a pergunta “Feijão?” A tréplica era imediata “Arranco”. E seguia a trilha como num auto popular.
Grafito de privada
Hoje há essa onda de grafitagem com os meninos e jovens fazendo diabruras para sair do anonimato e deixar sua marca às vezes no alto de prédios que chegam a escalar como alpinistas. Algumas bem sacadas, mas de uma perversidade à toda prova, como a do muro alvíssimo do Batel que o gaiato grafitou “Eta murão bão!” No nosso tempo esse exercício se fazia privadamente, isto é, nas privadas. Na do Ginásio Paranaense havia um “gozando” o obsequioso Mondrone, gorducho inspetor de alunos: “De madrugada//de longe eu vi//o Mondrone de cueca//caçando bentevi//.
Outras, absolutamente escatológicas, se referiam ao ato em si de estar na privada como se o pensador de Rodin tivesse sido apanhado em tal situação: “Neste lugar solitário//onde a vaidade se acaba//todo covarde faz força//todo valente se caga//.”
Umas delicadas, outras grosseiras, em meio aos desenhos de órgãos sexuais com a legenda (“estou de olho em você” ou “é isso que você está querendo”) esclarecedora, normalmente agressiva e denunciadora das restrições à sexualidade.
Dentre elas havia uma que já defendia a ecologia naqueles tempos, mas sobretudo as boas práticas de higiene: “Merda não é tinta//dedo não é pincel//quem entrar aqui//é favor trazer papel//”.
(hora h, Mazza, 4 a 10 de março de 1997. p.6-7)

As amargas,não
Os sobressaltos de 64
Um dia estou na esquina da Boca Maldita batendo um papo com Orlando Carlini, o campeão do mau humor e um duro crítico de todas as coisas. Falávamos de pescarias e eu tentava descrever um pesqueiro na estrada de Agudos do Sul, a antiga, que se destinava a São Bento, em Santa Catarina. Era o celebrado “Poço dos Pretos”, onde o Raváglio, o bicheiro, jogava um saco de quirera nas águas e apanhava os lambaris de cima de uma árvore.
(A propósito há uma história curiosa sobre o local. Um cidadão, que foi a primeira vez, naquele poço ficou espantadíssimo com o ritual de silêncio na aproximação do rio da Várzea. Na madrugada fria só se ouvia o rumor das águas e alguns cochichos. Quando pintou a primeira luz da manhã, o cidadão quase caiu de costas: em cada árvore havia um pescador pendurado porque no barranco era impossível. O quadro o impressionou tanto que ele o comparou àquela tela clássica da “primeira missa no Brasil”, tantos eram os índios nas árvores).
Pois eu fazia, detalhadamente, a descrição do local, enquanto o Carlini, mais conhecido como “Careca”, e muito habilidoso nas artes do desenho e até da cartografia, ia passando tudo para o papel com mais arte do que o Lerner quando esboça o mapa do Paraná.
De repente notei – e isso era comum no patrulheirismo policial daqueles dias que um “ouvinte” indesejável tentava captar a nossa conversa, ainda mais que eu havia feito referência ao “rancho” de um sargento. Palavras como “rancho” e “sargento” na cuca dos paranoicos da Dops, SNI, DOI-CODI etc. cheirava a guerrilha. O cara desafiava até o princípio da gravidade, tanto que se curvava para ouvir o que falávamos. Aí o Careca, dando liberação aos seus impulsos mais radicais, não hesitou e puxou o cara pelo colarinho, fazendo-o tombar aos nossos pés, enquanto continuávamos a nossa incursão mágica, fantástica, sobre lambaris de rabo vermelho e saicangas que a gente ia tapeando com massinha colorida de vermelho como se sangue fosse. Imaginem falar em sangue naquele tempo jamais seria interpretado como “ceva” para peixes predadores e sim como mais uma encenação dos inimigos da pátria para atrapalhar a revolução detentora.
(hora h, Mazza, 6 a 12 de junho de 1997. p.6-7)

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