A dura linguagem utilizada por Luiz Geraldo Mazza contra a classe política faz do texto do jornalista uma referência em termos de crítica a mandos e desmandos de partidos políticos e governantes apontados, por ele, como responsáveis pela “desparanização” do Estado.

8 de agosto de 2019 Off Por Redação
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A dura linguagem utilizada por Luiz Geraldo Mazza contra a classe política faz do texto do jornalista uma referência em termos de crítica a mandos e desmandos de partidos políticos e governantes apontados, por ele, como responsáveis pela “desparanização” do Estado, seja pelo entreguismo de patrimônios estatais, ou pela revelação de segredos sigilosos que acabam por comprometer negociações importantes. (pesquisa de Selma Suely Teixeira para o livro Luiz Geraldo Mazza e Eloi Zanetti comunicadores do Paraná, de sua autoria)

Ruminantes e Cacarejadores
Luiz Geraldo Mazza

Há os políticos que cacarejam e os que ruminam. Os que cacarejam são conhecidos dos paranaenses: recebem uma informação sigilosa e não se contêm enquanto não abrem o bico, mesmo que o informante seja o Golbery nos tempos de Richelieu do regime. Sua impetuosa compulsão para indiscrições é, por sinal, “instrumentável” para operações de contrainformação.
São capazes de dar o resultado da Loto com dois dias de antecedência. Os que ruminam se ajustam mais ao padrão mineiro: só abrem a boca para o dentista. Pois aqui no Paraná o nosso futuro governador parece ajustar-se à classificação e com uma vantagem – sendo dentista, abre a boca para si mesmo. Toda a classificação merecia a paródia latina sobre os riscos da definição “Omnis definitivo periculosa est”. Toda a definição é perigosa. É claro que à tagarelice e à logomania do cacarejador se contrapõe o compasso lento do ruminante. Jânio Quadros classificava o estadista Carvalho Pinto de ruminante. Era uma forma caricatural de acentuar o traço de sobriedade e cautela do paulista, sua resistência aos impulsos janistas, sabidamente um incontido, um verbalista sem barragens e comportas até quando exercitava a demagogia dos bilhetes com o português da Arcádia. Cacarejar e ruminar, portanto, são polos extremos de um espectro. Há, porém, matizes intermediários. Quem rumina e com elegância, dando a impressão até de um descuido cinematográfico, é Hosken de Novaes.
O Richa tem tudo para ir bem. E os seus silêncios sobre o secretariado que tanto irritam os mais impulsivos, ainda que confundidos com perplexidade e indecisão, só o favorecem. Além disso facilitam a guerra dos bastidores, a pressão dos “lobbies” (até gente do PDS anda escalando o time do futuro Governo o que é, no mínimo, algo a la Ionesco) empresariais e populistas e ajudam o liquidificador a girar com maior rotação e a facilitar a decantação final. Montoro é cacarejador, embora cisque bastante e tanto o é que não teve constrangimento em declarar os filhos como seus auxiliares. Tancredo, ao contrário, rumina e com aquela estampa de estadista, de apólogo da conciliação. O Richa tem um nome didático. Ele quer um governo à imagem e semelhança de Richa e não marcado fortemente pela rixa. 
(Indústria & Comércio, 18 de fevereiro de 1983.p.3B)

Reparanar
Luiz Geraldo Mazza

Reynaldo Jardim, companheiro velho de guerra, disse, um dia, na Folha de São Paulo, quer era preciso “reparanar”. Quem nos “desparanizou” foi o grupo arrogante e safado que até outro dia agia no governo como se fosse Maria Antonieta. E essa gente está de tal forma infiltrada no “aparelho de Estado” e no “lobby” dos negócios que age como se continuasse no poder. Para despistar, fazer mimetismo (que nem o de guria do “trottoir” que se veste de colegial para excitar a clientela e driblar a polícia) agem como “carpideiras” ante os escassos casos de demissão e armam um escarcéu de chantagem psicossocial. Não faz muito tempo o Luís Alberto de Oliveira, líder do PDS, defendeu no Legislativo a “entrega” do Porto de Paranaguá ao Governo federal. Sem querer estava continuando o ritual de Ney Braga que no governo trocou a nossa autonomia, ou seja, a escassa margem de manobra existente, por sua precária carreira melancolicamente impulsionada pelos rejeitos do arbítrio. O Paraná se entregou à União, dava tudo e não nada levava. 
A omissão das lideranças, tomadas de paralisia ante o cacique iluminado, configurava o nosso estilo. 
O povo cansado de humilhação, de corrupção e compadrio, expulsou todo o time de campo. E o governador José Richa, por sentimentalismo ou falta de pulso, mostra-se frágil ante os depredadores do Estado, permitindo que ainda detenham 60% dos cargos em comissão, isso para não falar nos “nichos” de negócios onde as articulações com empreiteiros e fornecedores lembram um cipoal do pior parasitismo. A apatia de Richa os anima a empreitadas mais agudas. Elementos do PDS se articularam para boicotar o plano já acertado com o Banco Mundial e pretendem montar um governo paralelo, forçando a triagem através da Sudesul. 
Mais um caso de “entrega” como o do Porto, pela incompetência dos que não enxergam oura forma de atuar politicamente que não seja pela via assistencialista e cartorial. O “entreguismo” deve ser execrado, mas Richa não se mexe. 
(Indústria & Comércio, 4 a 6 de junho de 1983.p.3B)

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