No caderno cultural Letras e Artes, Luiz Geraldo Mazza publicou, além de poemas, contos como O sono, qwertyuiop, Chaplin: 3 lições de ginástica chapliana e Os meninos da Tude.

18 de março de 2019 Off Por Redação
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No caderno cultural Letras e Artes, Luiz Geraldo Mazza publicou, além de poemas, contos como O sono, qwertyuiop, Chaplin: 3 lições de ginástica chapliana e Os meninos da Tude. (pesquisa de Selma Suely Teixeira para o livro Luiz Geraldo Mazza e Eloi Zanetti comunicadores do Paraná, de sua autoria)

O sono
Luiz G. Mazza

Corpo cansado, cara sonolenta, o suor escorrendo como gotas de chumbo derretido 
nas pálpebras, Jofre está na plateia do cinema e procura ser igual aos outros espectadores, aparentando naturalidade. Tem um fardo imenso sobre os músculos, um gosto amargo na boca e uma sensação de estrangulamento. Apagam-se as luzes, há um barulho irritante de pacotes de celofane sendo abertos por mil mãos, na tela o jato forte apresenta o galo branco da Pathé cocorejando e batendo as asas, Jofre está com o pensamento longe: a sua gorda e doce mulher, a conformada Regina – Rége para o pai e os filhos – avisa-lhe que é preciso trazer café para amanhã, aquele que você trouxe outro dia já se foi, aquele da Comissão de Preços, viu, meu velho, não se esqueça! Jofre sorri levemente, suave como riso de criança, sente o beijo de Rége na sua testa. Prudente mulher que na hora da comida diz conceitos de economia e de família: a comida só dá para todos, quando todos chegam na hora; se entra um agora, outro depois e outro mais logo, não sobra feijão pra sopa e nem nada para a noite; o Londoca, filho do casal, ri com as palavras da mãe e com a cara séria e passiva do pai. Precisa pagar a conta da luz, o açougueiro esteve hoje aqui pela manhã e o Londoca ficou de castigo na escola porque não tinha material de desenho: é a ladainha da Rége que diz tanta coisa, enquanto seus braços não param na limpeza de pratos. De repente, num gesto teatral, atitude de fim de ato, Rége, com o rosto sujo de carvão, pergunta em voz alta: “O que você pensa que são esses papeizinhos que tenho na mão?” Contas, meu velho, precisamos pagar essa gente! Jofre se irrita, mas depois sorri com a ingenuidade da mulher, o modo simplista de decidir as coisas: precisamos pagar essa gente e pronto!
Jofre está numa batalha tremenda entre o desejo de ver algo diferente daqueles quadros familiares: na tela há um desfile de modas, o narrador conta que aquele casaco de peles cobrindo a morena custa 25 mil dólares. Imagina a mulher naquela roupa de luxo e dá risadinhas, põe-se a multiplicar e a transformar dólares – 25 mil – em moeda nacional, a sucessão de moedas interminável leva-o ao sono. Seus olhos estão cedendo, sente que mergulha e, quando avista o teto do cinema, parece vê-lo como um céu feio e abismal, que se move regido pela música do filme, o corpo e as ideias desfalecem num desmaio vagaroso, como se um entorpecente lhe dominasse; o esforço para não dormir na casa de espetáculos e a exigência do organismo judiado, fazem-no despertar constantemente e julga, por vezes, que os risos dos assistentes se dirigem para a sua pequena batalha. Casaco de peles de 25 mil dólares cobrindo o corpo gigante da mulher, Rége sorrindo com dentadura postiça de artista de cinema por trás de um chapéu chique de plumas coloridas e muito orgulhosa caminhando, como um modelo experiente, na passarela de um cassino elegante da Flórida, com rapazes e moças desocupados esquiando nas águas de uma lagoa artificial no fundo – isso tudo o operário sonolento imagina e acorda sobressaltado, outra vez, com o frenesi da plateia, porque na tela um moribundo está dizendo aos que o cercam que não perdoará ninguém. Uma jovem chora na cadeira ao lado e Jofre procura concentrar-se no moribundo, que, pouco depois, morre. Volta ao sono e na verdade o Londoca lhe aparece de castigo na escola porque não levou caderno de linguagem, Jofre está dormindo e na “fuga” do cinema e do sonho dorme o sono dos operários cansados. Tem no rosto um riso de criança que vê anjos: Rége e Londoca choram e riem no repouso interrompido pelos sons da plateia. O guarda o acorda, a multidão está deixando o cinema e Jofre tem na face o desenho de uma quietude ferida. 
(Diário do Paraná, Letras e Artes, 20/09/59. p.2)

Qwertyuiop
Luiz G. Mazza

Rasgou outra vez o papel na máquina. O conto estava assim como um tumor maduro:
bastava apertar e pronto – sairia com carnegão e tudo. Fumou outro cigarro e viu a folhinha na parede com a gravura de Portinari: os empregados nos canaviais carregavam imensos fardos nas costas e as imagens eram deformadas, produzindo uma estranha unidade – a do homem-músculo, homem-braçal, confundido com o peso como um monstro. Queria tentar fazer um conto que desse margem a essas interpretações, que fosse capaz de comunicar alguma coisa possante como essa de operários rurais – braços e pés enormes – levando, mecanicamente, pilhas de cana a uma carroça. 
Foi à janela e tentou buscar na rua esquecida um elemento novo que lhe desse motivação para o início da história. Passou um carro e um sujeito suspeito atirava pedras na janela do segundo andar de um apartamento provavelmente para um encontro amoroso. Aquilo era horroroso, não tinha um mínimo de sugestões capazes de enquadrar-se nas suas cogitações. Começou a chover teorias literárias na sua cabeça: concretismo, neoconcretismo, modernismo, ismo, ismo, ismo. Era preciso fazer algo de novo, sem, contudo, alhear-se as experiências anteriores. Essa meditação acaciana ele achava muito pouco intelectual, cretina, mas não podia fugir dela. De repente, aconteceu o heureca, o estalo do Vieira: estranhou que ninguém tivesse pensado ainda naquilo e sentiu-se dominado pelas emoções do navegador que descortina novos continentes ou do classificador de micróbios que achou caracteres novos num espécime. Lançaria o simultaneísmo subjetivo, uma cerebração inigualável, cinemática: ao lado da ação objetiva achara uma dimensão nova, subjetiva, que correria paralela a outra, mas, sempre contrastando-a. “Será uma demonstração clara da inadequação humana aos valores pré-determinados, uma luta constante entre a realidade que cerca o homem em choque com o seu inconsciente. Pôs-se, então, a figurar um exemplo: imaginou uma grande barbearia com os fregueses como condenados, as cabeças pendidas, rostos ensaboados, e os oficiais barbeiros afiando navalhas. Todos os fregueses estavam perseguidos por uma só ideia: a de que seriam esquartejados naquele dia, inapelavelmente pelo fio da navalha. Essa ideia era inconsciente, tratava-se de um reflexo animal. Os barbeiros, por sua vez, sentiam um estranho prazer de sexo em massagear delicadamente o rosto dos clientes. Foi à máquina, colocou o papel e bateu a primeira tecla. Derrubou, acidentalmente, o cigarro que estava na ponta da mesa. Ao defrontar-se outra vez com aquele “c” idiota, turvando a brancura do papel, achou que era um personagem da própria escola que criara – o simultaneísmo psicológico ou subjetivo – mas incapacitado de gerar qualquer coisa como uma senhora que mandou amarrar as trompas. Ventre sáfaro: ah! essa inquietação brutal de flor e de animal de não poder afirmar-se, realizar-se! Era preciso analisar bem aquele simultaneísmo para não fazer picaretagem literária, construir uma doutrina gorda em torno do vazio. A arte deve ser, antes de tudo, útil ao homem: formar sempre um juízo sobre a existência ou sobre “formas da realidade” como lhe dissera aquele crítico repetindo outro repetindo outro. 
Pensou em deixar o quarto e ir à rua espairecer. A ideia de sair lhe parecia covarde. Ademais, mesmo que fosse no café da esquina ou a um cinema, não se libertaria do estigma de derrota que o angustiava. Portinari, os barbeiros pervertidos que se satisfazem enquanto esfregam sabão, os fregueses temendo, inconscientemente, ser (sic) esgorjados pela lâmina fria, os trabalhadores braçais levando fardos de cana e lembrando monstruosidades, o simultaneísmo subjetivo e a sentença “faça algo de novo, sem alienar-se das experiências passadas”, – tudo isso o deprimia. Resoluto – como um dadaísta (aqueles que fazem arte por impulsos) – bateu como um alucinado no teclado: qwertyuiop, q w e r t y u i o p q w e r t y u i o p – cada vez mais espacejado, mas sempre a mesma coisa. Levou aquele papel cheio de coisas desconexas – trazendo justamente a primeira linha do teclado da máquina de escrever – a um amigo e narrou-lhe a epopeia. Disse, conformado, ter consciência de que em matéria de arte só poderia funcionar como o doador no sistema de inseminação artificial: dar o argumento aos outros e inclusive a teoria literária. O amigo, porém, olhou-o sério e falou: “Não se preocupe em intelectualizar tanto uma decepção. Você acaba de fazer um conto concretista!”
(Diário do Paraná, Letras e Artes, 1/11/59, p

Chaplin: 3 lições de ginástica chapliana
L.G.M.

Eu me pergunto diante do espelho se sou Colvero ou Carlitos e, na minha versão da 
dúvida hamletiana, sinto que choro, mas a imagem teima em rir. Mergulho, então, os meus olhos, nos olhos virtuais da minha imagem e nessa fusão de substâncias descubro, em sua brutal natureza, a minha unidade descontínua, a minha humanidade ilógica e comum. Luto para ver se é dado a um homem transportar a sua utilidade lírica no tempo e desvendo que mil engrenagens exigem de mim uma adaptação impossível, mas necessária. Pergunto-me, com gesto, olhos e rugas – e faço isso porque não sei pensar nessas coisas de outro modo – se a mensagem que trago reclama um novo dialeto, uma linguagem que não posso dominar. Imagino “office boys” eletrônicos explicando que o que eu disse é rosa e que rosa é flor. Esforço-me para que as hipérboles que desenho com os dedos no espaço levem maior carga de comunicação e de calor humanos e meus braços se alongam e moldam mensagens no ar e os que me cercam não compreendem, estão mudos, parados, roupas iguais, olhos iguais. 
Terei me deixado superar? Não compreendi que a máquina não é tão feroz assim e como qualquer besta pode ser domesticada e colocada a serviço do homem, desde que o homem seja amigo da destruição da miséria e de tudo aquilo que o explora? 
E quando em meio à pantomima riem da minha figura feita de traços de figuras geométricas (uma composição inicial de desenho), escarafunchando latas de lixo em busca de comida e o inesperado surge na figura de um cão sem dono, que tem os mesmos direitos que eu e ainda por cima a tradição de catar o alimento nos detritos, entro numa luta desigual pela posse de um osso. Perco o osso e o cão leva ainda a bengala que é o meu terceiro membro inferior e também a minha asa funcional. Da minha derrota, da minha frustração, sobressai a coreografia: estou gesticulando na rua fria e deserta e esse ballet incoerente, em que fome e derrota são elementos de motivação, obriga-me a ficar pasmado e a sorrir aquele riso que não sei o que significa, mas que tem muito de dor. Uma dorzinha otimista, sem desespero, embora não conformada, mas dor. 
Por vezes estou em luta com a poesia. Sorrateiramente, ela entra como intrusa nos instantes mais inoportunos. Sou eu que a descubro, porque a vislumbro em todos os planos: nos olhos de um elefante, na cega vendendo flores na primavera, em tantas coisas mais, algumas prosaicas, rijas como pedra. Sinto que, às vezes, é preciso matá-la e isso significa apenas neutralizá-la. Já comi, para que o cenário se mantivesse frio, um buquê de flores brancas. E não esqueci de salgá-las para mostrar que é duplamente amargo comer flores. 
(Diário do Paraná. Letras e Artes, 13 de setembro de 1959)

Os meninos da Tude
Luiz G. Mazza

Gertrudes se olhou outra vez na poça d’água. Mexeu nos cabelos sujos, sem qualquer 
gesto de vaidade. “Sei que sou feia! Mas os meninos me gostam!” No meio dos alagadiços que não se libertaram da névoa da manhã, ergueu os braços e praguejou contra o vizinho que continua a jogar lixo da mercearia em seu terreno. Na verdade nada pertence à Gertrudes. O polaco da mercearia sabe que ela não gosta do lixo e por uma razão muito simples: os detritos provocam inundações constantes no terreno e a maior satisfação que ele tem é ver “a bruxa gritando de manhã, em altos brados, praguejando e dizendo obscenidades.”
– E’ uma farra ver a louca acordando a vizinhança à custa de nomes feios!
Gertrudes lava os seus trapos na água do lodo e quando vê os sapinhos ainda em embrião, como um feijãozinho negro guiado por uma cauda, diz coisas afetivas: “Eu vou te criar direitinho, meu feijãozinho lindo!”
Os sapos de Gertrudes possuem todos nomes especiais: Roberto, Azulzinho, Pedregulho, Brabo e Pedro. 
Uma dama da sociedade, muito católica, faz um abaixo-assinado contra a feiticeira do terreno baldio. Vai de casa em casa e pede a compreensão dos cristãos para salvar a alma da pobre endemoninhada. “Imaginem” – diz ela para convencer os outros – “a infeliz cria sapos para abastecer os centros de magia negra da cidade. Nós precisamos fazer um abaixo assinado para tirá-la daquela imundície e em seguida tratá-la bem e pedir informações sobre as pessoas que lhe compram aqueles bichos asquerosos”. 
Por força do hábito, Gertrudes descobriu a alimentação e a medicina dos sapos. Quando um deles amanheceu morto os olhos esbugalhados e o ventre estourado com os intestinos de fora ela chorou desesperadamente quase um dia inteiro. Com uma caixa de sapatos e papel colorido, montou um esquife, guardando-o à noite, inclusive com vela. Sepultou-o pela manhã. “Ainda vou chorar o Dragão por muito tempo: mas os outros precisam de mim.”
– A velha louca pensa que os sapos precisam dela. Vou jogar mais lixo do outro lado. Ainda bem que ela retira a sujeira, se não me roubava o prazer de ouvir os seus berreiros e malcriações! – Para o polaco da mercearia, o pior que poderia acontecer era o lixo acumular-se, formar verdadeiras montanhas. Não pensava nas moscas ou no cheiro ruim. “Já me habituei com essa maluca. Acho que serve até de relógio despertador para muitas pessoas”.
Dia de enchente, o polaco se gruda na janela dos fundos da casa e fica esperando que clareie um pouco para gozar com os sustos da Gertrudes que acorda com a água pela cintura. O dono da mercearia já chamou a atenção do polaco: “Você parece louco, homem, andar frestando uma infeliz. Isso é coisa de tarado.”
No meio da água barrenta a mulher grita pelos seus bichos e, vez por outra, enfia a cabeça no fundo. “Meu Deus, para onde foram as minhas crianças?” E põe-se a rezar a inúmeros santos e a pedir ao menino do pastoreio que a ajude a encontrar os coitadinhos. 
Só há uma pessoa com quem Gertrudes gosta de falar: é um vendedor de garrafas vazias. Passa por lá, cumprimenta-a e pergunta carinhosamente: “E como vai a criançada, dona Tude?”
Na última enchente, todas as desgraças possíveis caíram sobre Gertrudes. “Alguém me rogou praga, a água derrubou o meu paiol e não achei nenhum dos meninos. Acho que o bueiro engoliu todos.”
Arranhava o corpo e gritava que ia jogar-se nas águas, onde não mais conseguisse alcançar pé. Vieram os bombeiros e uma ambulância. Ela gritava que não era louca e aquilo lhe parecia uma desumanidade. Aplicaram-lhe uma injeção forte. Gertrudes sentiu que mergulhava na seda, em algodão, em alguma coisa fofa. Quando abriu os olhos o enfermeiro estava ao seu lado. Já não gritava e pediu baixinho: 
– “Vão me levar de novo, não é? Eu e os bichinhos separados”. Chorou como criança. A senhora cristã viu tudo do seu apartamento e fez o sinal da cruz. Espantado, o polaco estava na cerca assistindo à correria. “E agora essa, vão levar a Gertrudes embora”! Ele sentiu que estava perdendo alguma coisa. 
(Diário do Paraná, Letras e Artes, 4/9/60, p.2)

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