Em 1957, a página Letras, de o Diário do Paraná, é transformada em um caderno cultural passando a se chamar Letras e Artes. No novo espaço, Luiz Geraldo Mazza publica poemas e contos.

18 de março de 2019 Off Por Redação
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Em 1957, a página Letras, de o Diário do Paraná, é transformada em um caderno cultural passando a se chamar Letras e Artes. No novo espaço, Luiz Geraldo Mazza publica poemas e contos. São dessa fase os poemas A história da cadela na astronave que remete à experiência soviética de enviar uma cachorra ao espaço e O ciclista. (pesquisa de Selma Suely Teixeira para o livro Luiz Geraldo Mazza e EloiZanetti comunicadores do Paraná, de sua autoria)

A história da cadela na astronave
Luiz Geraldo Mazza

No ventre da lua sintética,
Damka flutua e nem abana a cauda
trisada de espinhos luminosos.
Mergulha numa cor irrevelada
de silêncio e de eternidade.
(Estar no espaço
e não poder latir à lua?)

Nos reflexos condicionados,
a memória recorta e difusa
fixa o alimento concentrado
ao tinir da campainha.
(Damka revelará aos cientistas
aquilo que temem descobrir?) 

Estrelas que desmaiam, pulgas azuis, 
sons de passos (cristalinos ou metálicos?)
no infinito: Damka sonha.
(Proletária dos espaços,
pode uma cadela ter partidos?)

Damka marcha como outros cães
eslavos, brasileiros, yankees ou turcos
na suprema aventura, desfolhada em rotina
de prestar-se ao holocausto das verdades duras
(Cão é cão mesmo
nisso acordam as duas fatias do mundo).

Aos poucos a fábula se afirma:
o homem se engrandece e aplaude engenhos
admira-se com o próprio espanto: 
o canto em Morse do infinito. 
E voa com o estalo da inteligência
para a conquista de novas liberdades.
Mas preso à dura condição
de rosa de carne que é
chora
sem medo de si ou da polícia
por Damka. Chora por Damka.
(Diário do Paraná, Letras e Artes, 10 de novembro de 1957. p.1)

O ciclista
Luiz G. Mazza

Era preciso um novo Dom Quixote
Viajando sobre duas rodas
Para enfrentar com o guarda-chuva
A despoetização do homem
E desvelar em meio às engrenagens
A íntima alegria dos cães
O direito dos canários ao sol
Roubado ao reflexo das janelas.
Nesse protesto ao ovo esterilizado
Aos portões eletrônicos
Esvazia nas ruas, ao canto
Dos meninos, a gabolice das mulheres
Na feira e o parentesco
Dos homens no barzinho,
Mergulhando relógios
Em copos de cerveja.
Entre células fotoelétricas
Que movem marionetes nucleares
Só o teu assobio
A bicicleta antifuncional
Reconstroem o homem sem pressa
E a balada das flores necessárias.
(Diário do Paraná, Letras e Artes, 18/10/59, p.2)

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