À porta do café, coluna de Luiz G. Mazza, para o Diário da Tarde, em 21 de maio de 1951. p.2

19 de fevereiro de 2019 Off Por Luiz Geraldo Mazza
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As crônicas da coluna À porta do café, de Luiz Geraldo Mazza, permeadas de ensinamentos adquiridos com leituras que o jornalista, então com vinte anos, já havia feito de Sócrates, Aristóteles, Anaximandro, Frances Bacon, Virgílio, Cícero, Madame de Stael, Victor Hugo, Musset, Freud, Pavlov, Watson e Wundt, ressaltam as mudanças comportamentais e sociais presentes no início da década de 50 como a presença da mulher em cursos superiores considerados, ainda naquela década, como essencialmente masculinos; a denúncia do destino dos desfavorecidos pela sorte que seguem trabalhando e sonhando com um presente de Natal que nunca receberão; o direito ao conhecimento que pessoas de qualquer idade deveria ter, e a perda da inocência e do romantismo de “romeuzinhos” e “julietazinhas”.

À porta do café
Luiz G. Mazza

Continuo a procurar pelas ruas da cidade o Romeu de calças curtas que a cerração e o frio puseram em fuga.
A dileta princesa do Romeu procurado também não apareceu mais à janela da casa, e fica entretida nos afazeres escolares e domésticos. Sim, a princesinha também costura e ajuda a mãe na limpeza da casa. 
Quando nos momentos de folga senta-se na cadeira e se põe a ler um livro de figuras coloridas, onde tem a história do príncipe de cabelos compridos que cortou as sete cabeças do dragão e libertara a donzela da masmorra do gigante que vivia a comer crianças e cuidava da galinha que botava ovos de ouro, a menina feliz transpunha a figura do seu namorado às páginas do livro, e deleitava o espírito ao sentir o príncipe levá-la através dos ares, montado na vassoura a gasogênio que a bruxa construíra. 
Sentia-se defendida de tudo e de todos nos braços do eleito que pareciam troncos de peroba. 
Nesses momentos sentia saudades do querido e ia à janela na ânsia de tornar a vê-lo na calçada fronteiriça. Pelos vidros embaçados olhava pela rua fazendo seus olhinhos curiosos penetrarem no manto compacto das trevas e da cerração. Lá fora, a quietude era completa. Apenas uma vez ou outra passava um guarda-noturno de uniforme azul desbotado (isto ela sabia por que já o havia visto durante a tarde), que trilava um apito irritante. 
Esse apito fazia a Julietazinha recordar-se do Romeu que durante o Carnaval andava fantasiado de super-homem, e também carregava um apito que produzia um som igual àquele do guarda-noturno. 
Às nove horas foi dormir, e no meio da prece, que havia decorado na escola das freiras, ainda lembrava o Romeuzinho desaparecido. 
Depois sonhou. Mas o sonho não era bonito como as histórias que costumava ler, e as figuras vinham com formas cintilantes e cúbicas. O príncipe não apareceu no sonho e sim um outro de corpo quadrado e pernas redondas como pneus de automóvel. 
Ele não andava e sim rodava como a “Buick” do vizinho, parando, às vezes, para tomar uma garrafa de gasolina, que movimentava o corpo esquisito. A cerração era uma bruxa que soltava fumaça pelo nariz e enchia o quarto de fumaça…
Foi aí que Julieta viu um quadro bonito do sonho. Do meio da fumaça que a bruxa soltava surgiu um menino muito bonito e inteligente, mas que usava uma farda cáqui e tinha um número no gorro. Era o seu amiguinho de infância, o Paulinho, cuja sorte mudou e agora vende jornais pela cidade. 
Ela quis aproximar-se da figura colorida, mas não conseguia, pois ouvia uma voz pigarrenta a lhe soar nos ouvidos. 
– Não vá, minha netinha. Onde já se viu você falar com um jornaleiro?
Depois outra voz, a do pai. – Não se aproxime dele. Veja só: a mãe dele morreu tuberculosa, o pai era um beberrão…
As vozes uniam-se e ficavam incompreensíveis até tomarem a forma de música carnavalesca. 
Aí mudou o cenário. Julieta estava na Rua XV e viu o jornaleiro juntando confete da calçada para atirar nas pessoas que passavam. Julieta quis, então, judiar do Paulinho e jogou “lança-perfume” no olho do menino. 
O garoto não reagiu. Ele gastara todas as lágrimas durante a morte da mãe e agora não chorava mais. 
Julieta acordou-se. Foi à janela e a claridade já dominava as ruas. Paulinho passava gritando: – Oi a Gazeta. Grande crime! 
Julieta não ligou. Mudou a roupa, tomou café e foi à aula na “Buick” do vizinho. 
No caminho viu o Romeu de calças curtas, com a sua roupinha de marinheiro, cabelos engomadinhos e sapatos brilhantes… Que primor!
(Diário da Tarde, 21 de maio de 1951. p.2)

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